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Mínimo sou, mas quando ao Nada empresto a minha elementar realidade, o Nada é só o Resto. Reinaldo Ferreira

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Dizem que sou como o sol mas com nuvens como na Cornualha

Friday, March 09, 2007

Fragmentos dela, dele e às vezes dos outros (6)

Nesse sábado ela acordou um pouco mais tarde. E ainda por cima decidiu fazer um pouco de ronha na cama até que, por fim, lá se levantou, muito devagarinho e se dirigiu para o duche. O gel de aroma a limão acordou-a.

O que vestir?. Jeans. E uma camisola. Uma qualquer. Tanto faz. Penteou o cabelo molhado e deixou secar ao ar.
Quase meio dia. Não tinha fome. Mas ainda viu o que havia de fast food no congelador. Bacalhau com natas e uma lasanha. Não lhe apetecia nem um nem outro. Bebeu só um copo de leite.

Sentou-se ao computador. Tinha publicado uma história no seu blog na véspera. Àquela hora já devia ter comentários. Os raios de sol atravessavam as paredes brancas do escritório, aquecendo os móveis. Miró estava todo iluminado.
Depois de ler os comentários abriu a janela para apreciar melhor o dia bonito que estava na rua.
Voltou ao computador. Ia a começar a responder aos seus visitantes de blog. Clicou no primeiro nome conhecido de cara desconhecida. Há dois anos que trocavam comentários mas nunca se tinham visto.
A luminosidade do sol não a deixava concentrar-se. Havia uma angústia que não sabia explicar. Uma inquietação….

Vestiu o casaco e foi para a biblioteca que se enchia de gente com alguma facilidade. Velhotes iam lá ler os periódicos sem pagar. Os computadores estavam todos ocupados.
Começou a tirar livros das prateleiras e a juntá-los debaixo do braço. Alguém esbarrou nela por trás. Os livros que ela segurava caíram ao chão. Os dois baixaram-se, precipitando-se para apanhá-los.

- Andava à procura deste. – disse ele – onde estava?
- Ali. Se quiser pode ficar com ele. – disse ela
- “Boas são as ideias que têm o mesmo grau de confusão que as minhas” - disse ele
- Proust.- e ela riu-se.

E ficaram a falar de Proust e da sua madalena a tarde toda. Despediram-se. E ela regressou a casa contente por ter conseguido aproveitar os raios de sol que lhe invadiam o escritório de manha. No caminho rememorava palavras, olhares, trejeitos e de repente lembrou-se que não sabia o nome dele.
da Leonor

25 Comments:

Blogger António said...

Querida Leonor!
Eis mais um dos teus fragmentos que li com o prazer habitual.
Neste caso, pretendeste comparar o mundo real com o virtual.
Pois!
Mas se ela e ele se encontrarem na biblioteca durante dois anos, acabam por conversar sobre casamento e não sobre Proust.

Beijinhos

10:52 PM  
Anonymous Anonymous said...

Sim. Desde que aqui vim a primeira vez, fui construindo aos poucos a razão da busca (sua, cara Leonor) e o seu objecto – a verdade. Afinal, genial e genuíno, é o caminho. Prustiano. (denunciou-se minha cara) Afinal, há uma escritora (você) que se faz ( .ez) artista. Criadora da arte. Feita letra em forma e substancia. Como quem é atirado à fogueira, na busca das respostas que queimam cada dia de vida. È o conhecimento feito da descoberta, pela via da dor sentida, e não imaginada. É o irretornável caminho da amargura, o ardor incontornável.

"Só procuramos a verdade quando determinados a fazê-lo em função de uma situação concreta, quando sofremos uma espécie de violência que nos obriga a essa busca. Quem procura a verdade? O ciumento sob a pressão das mentiras do amado. Sempre se produz a violência de um signo que nos obriga a procurar, que nos arrebata a paz" – Proust.

Mas… Odioso é fast food , e ainda por cima fria! Na vivência de uma crise existencial (pouco epicurista ao nível das vísceras) lhe deixo aqui uma receita, como fonte inspiradora

Ovos Estrelados ou Fritos
Ingredientes: 1 ovo, 2 colheres de sopa de óleo, 1 pitada de sal fino
Preparação:
1. Numa frigideira de pequenas dimensões, de preferência anti-aderente, leve o óleo a aquecer em lume médio. Deixe o óleo aquecer bem, o que deve demorar entre 1 e 2 minutos (pode ser mais ou menos, dependendo da espessura da frigideira.
2. Numa pequena tigela, parta o ovo e tempere-o com a pitada de sal (não exagere, pois é preferível colocar mais depois, do que inutilizar o ovo pois colocou sal em excesso!
3. Deite o ovo para a frigideira, com o óleo já bem quente. À medida que despeja o ovo sobre o óleo, a clara vai ficando branca. Quando a clara estiver totalmente branca, incline ligeiramente a frigideira e encha uma colher de sopa com o óleo quente, que deve derramar em seguida sobre a gema, para que esta coza. Se quiser que as gemas fiquem totalmente cozinhadas, repita esta operação 3 a 4 vezes.
4. Quando as bordas da clara começarem a ficar ligeiramente douradas, coloque o ovo num prato, com a ajuda de uma escumadeira (se a frigideira for anti-aderente, este passo não é necessário, pois basta inclinar a frigideira sobre o prato.
Nota:
- O tempo de fritura do ovo pode variar, consoante o gosto pessoal de cada um (há quem goste dos ovos "tostadinhos" e com a gema dura, e quem goste deles mal passados, com a gema mole e a clara totalmente branca).
- A frigideira deve pequena, anti-aderente e ser única e exclusivamente usada para ovos, pois se a usar para outras preparações (tipo bifes), torna-se áspera e faz com que, ao fritar ovos, estes fiquem cheios de bolhas de ar e queimados.
. in: http://comezainas.clix.pt/iniciados/receitas.asp#OvosEstrelados

Se o post for excessivo, remova-o por favor, e aceite as minhas desculpas.

11:01 PM  
Blogger Paula Raposo said...

Há quem chame acasos. Beijinhos.

8:07 AM  
Blogger bom dia isabel said...

Fragmentos da vida virtual e da vida real. De uma e outra. Ou de ambas? Mas não haverá apenas uma? Não fará esta parte da outra?
Penso que, mesmo aqui, os encontros obedecem às mesmas leis, talvez sem que nos apercebamos.Mas obedecem. Afinal de contas, este mundo é feito de afinidades. E nós, os que aqui nos sentamos a escrever, mais não fazemos do que uma roda de amigos onde partilhamos sentires e gostos semelhantes. Aqui construimos amizades que podem ser tão sólidas quanto as outras.As que fizemos desde a infância, desde a adolescência, profissionalmente... Afinal , realidades diferentes, que se consubstanciam numa única realidade.Só há mesmo uma! Neste espaço, exíguo, mas simultaneamente tão vasto, encontro aqueles com quem quero partilhar o meu quotidiano, este meu gosto pela palavra, neste caso apenas escrita, mas que não deixa de ser uma agradável conversa.
E se um dia nos encontrarmos todos? Para falar do que quisermos, do que nos apetecer, do que gostamos, do que não gostamos...de Proust, de Sagan, de Garcia Marquez, de Pablo Neruda, de...de...de... De nós.
Do Algarve, para ti, que tens sangue algarvio, envio mil beijinhos.

8:26 AM  
Blogger Leonoretta said...

PARA ANÓNIMO

caro anónimo, imagina as vezes que eu procurei a receita de como estrelar um ovo em livros, supostamente, de culinária?

nunca encontrei e agradeço-lhe os truques ensinados. afinal dizem que nos cursos de culinária a primeira coisa que se aprende é estrelar um ovo e não se passa adiante sem o saber fazer.

obrigado por mais um pensamento de proust que confesso que não conhecia (meu deus, já fiz as contas e se me restar mais dez anos de vida, só me resta a leitura de mais 40 livros, a 3 meses cada um pelo que terei de fazer bem a minha escolha.

e obrigado pela primeira parte do comentario que eu considero um grande elogio á minha pessoa.

abraço da leonoreta

10:54 AM  
Blogger A.S. said...

Vi os teus olhos durante o voo de um pássaro que atrevessou o céu. Olhando as nuvens reparei que é sempre esse pássaro sempre existiu desde o inicio da nossa amizade. É o seu canto que abre as portas da manhã.


Um abraço Leonor...

3:33 PM  
Anonymous lena said...

Leonor, minha amiguinha, este sábado também acordei um pouco mais tarde...

mais um dos teus bem escritos Fragmentos, bem real nos dias de hoje, normal de um sábado

quase podia ser o meu ou de outra pessoa ...com a excepção que de manhã quando acordo, na minha cabeça só surge um destino, depois do duche, deliciar os meus olhos com o mar...

bem descrito este momento, envolvente e prende até ao fim

Proust entrou de mansinho para dar um sabor diferente e um bom motivo para se trocar ideias, "em busca do tempo perdido"
Se sonhar um pouco é perigoso, a solução não é sonhar menos é sonhar mais.
Marcel Proust

e eu sonho muito Leonor, tal como agora, sonhei acordada e segui o regresso a casa

quem sabe se num próximo sábado não se voltam a encontrar

o importante aqui foi ler-te, uma vez mais consegues prender-me

abraço-te sempre com muita ternura, doce amiguinha e bela Leonor

beijinhos muitos

lena

3:34 PM  
Blogger augustoM said...

Até parece o blog. Num conhece-se o nome (quando é verdadeiro) mas não a cara, noutro conhece-se a cara e não o nome. Fica tudo pela metade. Não reclames o tamanho, faz uma leitura Zen.
Um beijo. Augusto

7:10 PM  
Blogger António said...

Querida Leonor!
Obrigado pelo teu comentário ao meu conto "O cego".
Espero que já estejas recomposta do choque traumático que te provoquei.
ihihihihihh

Beijos meus

9:50 PM  
Anonymous JMC said...

Dia esse que passou tão rápido, mas ao que parece, tão cheio de acção e emosões, há aqui no entanto um lapso temporal que pode ir mais longe do que aquilo que nos é transmitido pela escrita.

11:19 AM  
Blogger Da Casa da Mathilde said...

Fragmentos de vidas distintas. Muito interessantes! Iniciei hoje, também, esta caminhada.Difícil mas com a obstinação e teimosia que me caracterizam. Por aqui irei ficando até quando me quiserem acolher.
A vida tem fragmentos e fragmentos.
Bom domingo!
Beijinhos

12:19 PM  
Blogger perola&granito said...

;)

10:27 PM  
Blogger Leonoretta said...

PARA JMC

de repente o seu comentario, quando refere o lapso temporal, remeteu-me para aquela lengalenga do tempo, que so o tempo sabe quanto tempo o tempo tem.

abraço da leonoreta

10:42 PM  
Blogger Dumb said...

Afinidades ao virar da esquina num dia de sol. Se isso não é o dia perfeito anda lá perto...

12:31 AM  
Blogger Pepe Luigi said...

Leonoreta,
Que maravilha de narração, muito límpida e extremamente agradável.
Gostei muito!

Um beijinho
do Pepe.

12:38 AM  
Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Leonor
E quantos nomes já tivemos desde os tempos passados?... agora mais ainda, virtuais...
Um beijo
Daniel

12:55 AM  
Blogger mixtu said...

e o nome é relevante?

intenso... escrita que é escrita...

beijinhos

4:06 PM  
Blogger Betty Branco Martins said...

Querida Leonor

Fragmentos de vidas entre-dois-mundos

De uma forma harmoniosa (bem ao teu jeito)os vais cruzando.

Beijinhos com muito carinho
BSemana

8:48 PM  
Blogger Mikas said...

E se ele fosse o desconhecido da blogoesfera?

2:02 PM  
Anonymous Anonymous said...

Uma maravilha.
O texto(real, irreal ?)e os comentários.
Gostei muito.
Abraço.
Zé - Viajante Transatlântico

PS.
Não consigo aceder ao endereço de blogger. Vou tentar perceber porquê

7:53 AM  
Blogger Cusco said...

Muito bem escrito este texto.
Um retrato muito concreto de uma ficção muito real actualmente.
Parabéns e já fica prometido que voltarei:
SE DEUS QUISER

7:00 PM  
Blogger individuo said...

Atão? Por onde andas?

8:11 PM  
Blogger Professorinha said...

Esse jovem promete mais posts....

Beijinhos

1:07 AM  
Anonymous Anonymous said...

esta modernidade feita de antecipação, que fez os verpertinos, se vestirem de roupagem de matutinos, criou escola. Ás 4 da matina, vim, procurar os fragmentos 6. Ah! cara Leonor, vc nao aderiu, às nuances da rentabilidade, nem ao marketing da expectativa. Está certo...volto a vale de lençois, esperando o sol nascente. Será hoje que eles assumem?

5:01 AM  
Blogger cm said...

~"Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.....Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.
- O que aconteceu comigo? - pensou.
"
Proust por Kafka

10:45 AM  

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