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Mínimo sou, mas quando ao Nada empresto a minha elementar realidade, o Nada é só o Resto. Reinaldo Ferreira

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Dizem que sou como o sol mas com nuvens como na Cornualha

Saturday, March 17, 2007

Ainda acerca das coisas de ler

Fui durante mais ou menos uma década a única neta e a única sobrinha do lado materno. Nunca tive irmãos e, por muito curioso que seja, também nunca senti a falta de nenhum.

Desde criança até ser adolescente, passei as férias grandes da escola, que naquela altura eram mesmo grandes, em casa das avós, no Algarve. Ora na avó materna, na cidade, junto à costa, aproveitando a praia, ora na avó paterna, no campo, comendo figos da árvore.

Sem miúdos para brincar, preenchia a solidão com a imaginação tirada dos livros que lia. Tinha o dom de ver as páginas tridimensionais e por elas conheci muita gente e existi em muitos lugares. Mas o facto de ser sozinha não me tornava apática. Do nada, eu tinha de sobreviver ao marasmo dos dias e, do nada, descobri um dia um tesouro escondido.

A minha tia, irmã da minha mãe, mais velha que eu doze anos, na altura, sócia recente do círculo de leitores, comprava livros, que devido a uma censura das artes bastante activa em Portugal, eram considerados como proibidas pela moral neles contidos. Depois do 25 de Abril, creio que o estado de coisas amenizou nos círculos literários e editoriais mas não nas cabeças da minha avó e da minha mãe.

Descobri que a minha tia comprava determinados livros como o “Crime do padre Amaro”, o “Primo Basílio”, o “Inverno do nosso descontentamento” e “Teresa Batista cansada de guerra”… no fundo mais fundo do guarda fatos. De repente, eu que nunca consegui dormir à tarde mesmo mordida pela mosca tsé tsé comecei a fazer pausas à espanhola depois do almoço. Vou dormir avó. Sim filha vai. E assaltava o guarda fatos.

Contudo, era demasiado miúda para perceber certas conotações politicas, sociais e afectivas. Mas alguma coisa ficava. Virei-me para a ficção científica. Um livro extremamente confuso chamado UBIK contava a historia de um spray milagroso, ubik, que tinha a capacidade de ressuscitar quem já tinha morrido três vezes durante cerca de meia hora, ora para matar saudades ora para resolver alguma trama.

Confesso que pouco percebi do livro. Porém, cerca de dez anos mais tarde, perante uma birra de um professor de filosofia que me dizia que não era ubíquo eu percebi a palavra ubiquidade e percebi então as características do spray.

O processo cognitivo é uma coisa formidável. Remete para sítios recônditos que julgamos já apagados problemas não resolvidos para mais tarde, não importa o tempo, fazer a associação que faltava. E faz. Em psicologia creio que se chama input, Arquimedes chamou-lhe Eureka.

Os livros dizem-nos as realidades através das portas dos sonhos. São os grandes culpados por nos fazerem acreditar em príncipes e em princesas. Mas como viver sem eles?
da Leonor

25 Comments:

Blogger bom dia isabel said...

Ora muito bom dia, Leonor!

Li com atenção o teu post, linha a linha, sem pressa nem desmotivação.
E gostei! Muito! Conseguiste abrir o livro, os livros, aqui, do lado de cá, comigo. E entrei sorrateiramente, no guarda-fatos, onde estavam vários livros do tio , mais velho do que eu 18 anos. Estava lá, entre outros, de Zola, o Germinal e foi muito menina que o comecei a ler. Sem que se apercebessem que eu entrava noutro espaço, noutro mundo, noutro tempo. A clandestinidade daquela bibblioteca,que eu não sabia explicar, atraía-me. O fruto proibido não é o mais apetecido? Ganhei o gosto pela leitura e, por ela, isolo-me muito tempo. Abro esse mundo de sapiência, eloquência, mistério, aventura e embarco para outras paragens. Reais, irreais, possíveis, impossíveis. Regresso sempre com a sensação de que estive num mundo muito meu.
Minha querida amiga algarvia, de costelas deste agora Allgarve, Deus meu, gosto de te ler, gosto da tua casa, gosto da dimensão dos teus posts, do seu conteúdo e dos afectos plantados por algarvios e que deixas,de forma sublime, passar para o lado de cá.
Beijinhos e tem um bom fim de semana.

10:22 AM  
Blogger António said...

Querida Leonor!
Um excelente post sobre livros e leituras que denota alguma influência do momento profissional que vives, da efectivação do mestrado.
Já escreves como uma Mestra!
Não Mestra-escola mas Mestra, "tout court".
E a tua ironia de que tento gosto, sempre lá!
Deixa-me dizer-te uma coisa: se durante o salazarismo a censura nos livros era feroz, no marcellismo quasi desapareceu.
Nesse período podia-se comprar e ler Marx e Mao, por exemplo.
Gostei muito!

Beijinhos

10:58 AM  
Anonymous JMC said...

Naturalmente, ao ler este texto, sou transportado para as
infinitas capacidades do cérebro humano, atendendo a
que o maior dos maiores computadores do mundo não
tem a capacidade de reter e gerir de forma precisa e aleatória
tão grande quantidade de informação, guardada, arquivada sabe-se lá á quantos anos, depois é como diz alguma coisa que foi lida, mas que na altura não fazia sentido porque o desenvolvimento cultural não tinha atingido essa meta de conhecimento, basta aparecer a peça que falta no
tema guardado, para que imediatamente ele seja recomposto e passe a fazer então, o sentido que até ali era uma interrogação.

Bom fim de semana

JMC

11:34 AM  
Blogger Paula Raposo said...

Verdade! Os livros são mágicos. Beijos.

12:44 PM  
Blogger António said...

Querida Leonor!
Desta vez quero agradecer o teu comentário ao meu "O velório" e ao insane "A chuva voltou".
"Os amigos de Alex"!
Filme mítico.
(ainda hoje devo postar uma nova história)

Beijinhos

3:36 PM  
Blogger augustoM said...

A nossa ubiquidade é uma das coisas mais maravilhosas que temos. Contrariados num lado, o sonho pode simultaneamente, colocar-nos noutro que nos dá prazer. Afinal quem não é ubíquo?
A propósito, também és uma daquelas pessoas que pensa que o livre arbítrio é uma coisa genuinamente nossa? Talvez tenha a resposta, mas não leias na transversal, ou ficas na mesma.
Um beijo. Augusto

5:52 PM  
Blogger António said...

Querida Leonor!
Agora é para agradecer os comentários ao "Falta de água" e ao "Insanismo".
Só te queria dizer que cheguei a propôr que o meu filho se chamasse Adolfo...Adolfo Dias (não Hitler) mas a sugestão não foi aceite. Nunca percebi porquê!
Também vou responder ao "Insanismo" como comentário a comentário.

Beijinhos

8:25 PM  
Blogger lena said...

és realmente Mestra das palavras e da escrita, minha querida amiga Leonor

li-te, senti-te

imaginei-me,

não sou filha única, penso que não o saberia ser, há uma grande cumplicidade entre mim e as minhas irmãs

lembro-me de começar a ler muito cedo, assim como escrever, talvez porque o meu pai o fazia e para mim ele foi “é apesar de não estar vivo” meu ídolo, o companheiro de todos os meus momentos

sentada de barriga para baixo, era assim que o fazia e deliciava-me

também li "antes do tempo" se bem que eu ainda hoje não sei se o tempo contava muito, na curiosidade que me fazia ler e sonhar, li sim "o Crime do padre Amaro”, o “Primo Basílio”, o “Inverno do nosso descontentamento” "A Freira no Subterrâneo",
virei-me para Agatha Christie, para depois a trocar por ficção cientifica, claro que sem nunca deixar a poesia de lado

para te dizer a verdade só mais tarde me apercebi da grandiosidade dos Maias, livro que li 3 vezes sem me cansar

o livro é uma companhia, entramos nele, imaginamos, sonhamos, é nosso companheiro, fazem-nos acreditar em "impossíveis" é vivo dentro de nós

estendi-me muito, desculpa Leonor, minha boa amiga, mas fizeste com que me lembrasse o caminho das minhas leituras

escreves e acabas sempre por me absorver por inteiro, é um dom que tens e admiro, pois é tudo muito bem descrito

abraço-te com um grande carinho, linda Leonor
e beijinhos muitos para ti

lena

9:53 PM  
Blogger A.S. said...

Como viver sem livros, perguntas!
Um livro envolve muitas emoções para além do sei conteúdo.... a volúpia de o teu na mão, a textura ds inconfundivel das suas folhas, o halo de mistério que o envolve, o prazer de lhe revelar o oculto, pensá-lo na sua intimidade, senti-lo intensamente no secreto de nós. Depois, mergulhar nas suas palavras em doce inquietação, numa emergêncoa sem contornos... e repousar aí! Sorrir aí!...

Este tem belissimo texto Leonor, é uma notável exortação à leitura!

Um abraço...

2:52 PM  
Blogger Arte por um Canudo 2 (No Sapo) said...

Excelente texto Leonor que nos leva a carregar a magia contida nas tuas palavras.Vês nos livros os companheiros insubstituiveis da infãncia que te davam as respostas certas às tuas questões.Foram eles que te descreveram o percurso de vida e vês neles o melhor amigo. Nota-se o quanto é para ti ler. Mais uma vez existe magia no teu texto. Bom Domingo.Bjs

5:08 PM  
Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Leonor
Pois... A ficção científica também fez parte da minha formação, assim como os romances e as enciclopédias :) Outros tempos, em que não se vivia através de ecrãs, seja de TV, seja de PC, seja de consolas...
Agora, temos isto tudo mais os nossos livros... somos mais ricos, acho eu...
Um beijo
Daniel

9:26 PM  
Blogger david santos said...

Olá!
Bom trabalho. Parabéns

10:51 PM  
Blogger Daniel Aladiah said...

Asimov, Heinlein, Farmer, "Doc" Smith, Anderson e tantos outros... há muito não os leio, mas tenho uma grande colecção :)
Um beijo
Daniel

11:23 PM  
Anonymous Ana Joana said...

Olá Leonoretta
A nossa memória continua a encerrar todos os mistérios. Aquilo que já se descortinou fica muito aquém do que ainda está por ser clarificado. Pelo menos essa noção já existe.

O que vamos registando, os inputs, são a base deste tipo de relacionamento /encadeamento de experiencias que algum estimulo mais ou menos explicito fez vir cá pra fora, outputs.

Quanto aos livros que fomos lendo, com tempero de clandestinidade, saboreámo-los de forma intensa e interpretação que ía para além da compreensão da escrita - sobrava em emoção o que faltava em abrangencia da história por falta dos conhecimentos necessários à mesma. Era outra perspectiva da leitura rsssss.

Uma boa semana para ti
Beijinhos

Ana Joana

9:32 AM  
Blogger viajante said...

Viver sem livros é desastroso. Mas é angustiante não conseguirmos ler tudo aquilo que queremos - e que já temos lá em casa.

A reforma servirá para isso?

12:45 PM  
Anonymous ConchitaMachado said...

Leonor,
Passei...
Excelente post(s)!

Beijinho amigo

5:38 PM  
Blogger Leonoretta said...

PARA JMC

é verdade. o computador, um cérebro humano. é a máquina feita á semelhança do homem.

as tres fases da memoria, sendo a ultima a mais ingrata que tanto guarda coisas boas como coisas más.

abraço da leonoreta

9:10 PM  
Blogger almaqueabsorveaslagrimas said...

Gostei do que li. E identifico-me contigo apesar de ter tido dois irmaos mais velhos, uma prima um ano mais nova. Na realidade gostava era de brincar sozinha e ler.. ler muito. quando li os maias aos 12 anos de certa forma nunca percebi muito aquelas coisas. Mas mais tarde, há sempre um momento que a maturidade implica conhecimento. e é aí.
Quanto à psicologia, a memoria tem a particularidade de nos fazer entender as coisas de outra forma noutra altura noutro tempo. :)

Um beijo grande
até um dia

**

2:30 AM  
Anonymous Anonymous said...

Leonor

Abri a(s)outra(s) janela(s) mas o Transatlântico continua.

Abraço.


PS. Por qualquer razão não consigo aceder ao meu link. Segue como
" anónimo "

3:16 PM  
Anonymous Anonymous said...

Para ler de manhã e à noite.

Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.
Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva.

Bertolt Brecht

Talvez seja por esta tão intima razão, que nunca leio em jardins, ao orvalho de junho. As madrugadas são breves, mas os orvalhos, humedecem os livros.

Nota: Sou o anónimo. O genuíno. Da bayer.

7:53 PM  
Blogger O Micróbio II said...

4 anitos... lá pelo Micróbio! :-)

12:46 PM  
Blogger Leonoretta said...

PARA ANA JOANA

ola ana joana
escolhi um dia mau para te reesponder e por a resposta é capaz de sair muito conzenta.

a memoria.
ainda bem que algumas se apagam. mas porque nao apagamos uma outra serie que queremos e nao podemos?

beijinhos da leonoreta

8:43 PM  
Blogger Leonoretta said...

PARA ANONIMO

gosto de brecht

especialmente deste bocado de escrita que aqui colocou.

da aspirina tambem. a da bayer. quando estou com grips, evidentemente.

leonoreta

8:44 PM  
Blogger Mocho Falante said...

em psicologia chama-se insight. Na verdade a nossa memória é uma verdadeira base de dados e até associa certos cheiros a determinados episódios que vivenciámos...

É engraçado recordar as coisas furtivas que se fazia na infância não é? Eu lembro de também ler livros dos meus irmãos mais velhos que na verdade na altura não entendia e com o passar dos anos quando se falava deles lembro que ficava alguma coisa

beijocas

9:39 PM  
Blogger SaltaPocinhas said...

Entendo-te perfeitamente!
Tinha exactamente essa relação com os livros!
Lembro-me de ter lido "olhai os lirios do campo" e de só o ter entendido muitos anos depois!
Bjs!
está tudo bem contigo?

1:24 AM  

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