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Mínimo sou, mas quando ao Nada empresto a minha elementar realidade, o Nada é só o Resto. Reinaldo Ferreira

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Dizem que sou como o sol mas com nuvens como na Cornualha

Monday, August 15, 2005

Liberdade e Responsabilidade

A Essência de Henrique de Jesus In Mil Imagens


São sete horas da tarde. Está calor. Chego-me à janela a fim de apanhar uma brisa distraída que me solte os cabelos molhados colados no pescoço. O sol já desapareceu no horizonte mas o céu ainda me deixa ver com nitidez quem passa lá em baixo na rua. Os carros amontoam-se estacionados nos passeios tirando o privilégio aos peões que por falta de espaço têm de deslocar-se pela estrada.


Ouço as cigarras. E enquanto ouvir as cigarras e os pássaros a cantar penso que ainda há uma réstia de vida no planeta que se degrada de geração em geração. Ouço um tinir metálico mesmo debaixo da minha janela. Tinem leve, levemente mas não é uma cigarra certamente… fui ver… assomei-me e vi… a minha vizinha do prédio ao lado riscava um carro a todo o comprimento com a sua chave de casa. Felizmente que o carro não era o meu mas mesmo assim… doeu. Doeu mais ainda ver quem tinha tomado tal atitude.


Lembrei-me de Kant.


Segundo Kant, todos os indivíduos possuem uma consciência moral que implica determinadas formas de agir, envolvendo os outros. Por isso, ao agir, mesmo tendo em conta a intenção de bem, o individuo deverá questionar se a sua acção é correcta e o que aconteceria se todas as pessoas agissem como ele. Cada individuo, ao agir, deve colocar-se no lugar do outro pois ao fazê-lo encontra uma série de princípios que devem ser respeitados, na medida em que não pode retirar ao seu semelhante o mesmo direito que ele tem.


Senti-me dividida entre aquilo que eu devia fazer – denunciar - e o que não devia – calar. Que devia eu fazer? Esquecer-me do convívio que fomentei ao longo dos anos com aquela vizinha, ainda que superficial não passando a maior parte das vezes do bom dia, como está, então e os meninos e os paizinhos, estão benzinho, e entregá-la ao dono do carro a fim de pagar a má acção… ou… fazer de conta que não vi nada, afinal o carro nem é meu e eu nem conheço o seu dono e deixar o visto pelo não visto.


Kant não olharia para trás. O certo seria entregar quem fez mal. É o teu maior amigo? Não interessa… fez mal. Entrega-o.


A existência dos outros fazem-me tomar consciência de mim, limitando a verdadeira intenção da minha acção, limitando a minha liberdade pois o agir livremente não significa que eu possa fazer tudo o que eu quero e ir contra as regras estabelecidas. A liberdade implica responsabilidade. Ser livre significa ser responsável pelas suas escolhas e ser capaz de prestar contas dos seus actos.


Ou seja…


É-se mais livre quanto mais responsáveis formos pelas nossas escolhas. Fiquei com o espírito estraçalhado num dilema. Senti-me de mãos e pés atados pela escolha que teria de fazer… E eu que só queria um pouco de ar fresco no rosto e no corpo.


da Leonor

37 Comments:

Anonymous batista filho said...

Leonor, aqui, em Brasília-Brasil, são 7:05 hs. Rejane, minha esposa, há poucos minutos saiu pra escola. Filipe e Luiza, filhos, ainda estão enrolados, como sempre, volume à toda, curtem um rock que diz: “Chuva! deixa rolar...”; estão naquela fase que pensam ser os donos do tempo, os donos do mundo... depois, jogarão uns beijos, que apanharei no ar, e sairão correndo pra escola (pego no serviço após o almoço).
Antes de passar pelo teu blog, visitei GaivotadaRia: o texto de lá é brisa, que ao terminar de lê-lo, sentimo-nos mais leves quase a voar: trata da cadelinha da casa.
(“Beijos, pai!”, “Tchau, pai!” – os meninos me gritam. “Desliguem o som. Vão com Deus”, grito pra eles... como não desligaram, lá vou à cozinha, fazer o que não fizeram... balanço a cabeça, ao ver a bagunça que deixaram.)
E cheguei ao teu blog, Leonor. Leio-te. Através das tuas palavras vivencio o que estás a sentir. E penso no tanto de vezes que vivi situações semelhantes: quando, “desafiado” por minha consciência, segui em frente, fazendo de conta que não tinha nada a ver... ou tomei uma atitude cidadã. Já agi das duas formas. Todas elas trouxeram/trazem implicações que me acompanharam/acompanham por onde eu vá. Como já me estendi por demais e como endosso as tuas ponderações, páro por aqui.
Valeu pelas colocações, amiga. Um beijo solidário.

11:25 AM  
Blogger AS said...

Leonor, não te pergunto que atitude tomaste, pois eu sei qual foi! e fizeste bem...

Um beijo e bom feriado

11:46 AM  
Anonymous JMC said...

São decisões sempre complicadas de tomar, provavelmente nem sempre a melhor é a mais acertada.
Agora vou de férias, até Setembro.

12:23 PM  
Blogger Isabel-F. said...

Pois Leonor....
Por vezes não sabemos qual a situação correcta a seguir...
o que terá levado a tal mulher a fazer o que fez????

beijinho

12:42 PM  
Blogger Leonoretta said...

batista
adorei o relato do teu dia. rejane ja conhecia. hoje fiquei a conhecer filipe e luiza. que maravilha.


frog
afinal a net nao é assim tão virtual. as palavras deixam ver muito da nossa atitude. tens razao... calei-me.


jmc
sao sempre as mais dificeis,envolvendo ou nao gente conhecida. boas férias e depois volta.


isa
o grande choque foi saber exactamente quem fez. nunca diria...


abraço da leonor

1:42 PM  
Anonymous Ze said...

Ouvir as cigarras e os pássaros ainda nos dá alguma esperança. Mas cuidado. Há por aí muita gente que até isso nos quer tirar...

2:14 PM  
Blogger António said...

Muito bom este post!

E acabaste por fazer aquilo que quasi todos, quasi sempre, fazemos.
Deixar correr o marfim!

Kant na vivia na selva de betão!

Jinhos

3:59 PM  
Anonymous Anonymous said...

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4:15 PM  
Blogger Leonnoretta said...

ze
acredito no poder de Geia. mais dia menos dia ela dá sempre a resposta.


antonio
muito obrigado. deixei correr o marfim mas como alguem me disse "Somos apanhados no conflito permanente nas questões em que nos debatemos entre o justo e o conveniente"


kentucky
sorry bud, but what a hell are you trying to sell to me?


abraço da leonor

4:57 PM  
Blogger Mocho Falante said...

Como dizia Nietsche, Kant era um asceta e por isso não conseguiu perceber o que é viver numa selva humana....

Afinal de contas apenas querias ar e ofereceram-te uma dúvida metódica

5:49 PM  
Blogger SaltaPocinhas said...

Eu não contava (acho). Se calhar o dono (ou dona) do carro mereceu, sabe-se lá!

6:16 PM  
Blogger lazuli said...

seja qual tiver sido a tua escolha, tem prós e contrás. É fácil dizer que contar seria a melhor, se é..Mas cada momento é cada momento. Um beijo!

8:53 PM  
Blogger M.P. said...

Olá, Leonor! Essas experiências de vizinhos são realmente ... terríveis! E nem me fales em vizinhas... De um e de outro lado estou "muito bem" servida! :/... Qunato ao que contas,já tive uma experiência semelhante aqui em casa em que felizmente não foi o carro mas a beira de fora da janela! Exactamente da mesma maneira que contas... :/ Vá lá perceber as mentes das pessoas!!
Boa Semana!!**

9:01 PM  
Blogger Leonoretta said...

mocho
rsssssssssss, e já o antónio disse o mesmo acerca de Kant, que ele não vivia com os outros. Ai a duvida metódica que eu arranjei... pois Descartes era outro doido à solta, rsssss


saltapocinhas
bom, não sei, e dai já que falas nisso, se calhar foi a providencia, aquela do o que cá se faz cá se paga


lazúli
seja como for, eu que não tive culpa, ai a culpa que nos persegue desde Édipo, fiquei cheia de culpas, rs


Manuela
Os meus vizinhos até que não são mauzinhos. So de pensar que me aturam há 40 anos até tenho pena deles, rs


Abraço da leonor

9:20 PM  
Anonymous amita said...

Olha, Leonor, realmente é uma decisão difícil de tomar no momento, devido à surpresa de um acto proveniente de quem veio.Vou resumir-te um caso semelhante passado com vizinhos meus.Um deles começou a ver os carros riscados sempre que os estacionava em determinado sítio da rua, à noite. Com a colaboração de outro, passou horas em casa dele de máquina de filmar em punho e de máquina fotográfica a ver se apanhavam o marau. Até que um dia, da casa em frente onde os carros estavam estacionados, viram sair o dito cavalheiro (assim todos pensávamos que ele era), com um saco de lixo na mão para colocar no contentor. Mas, à medida que passava pelos carros, ia-os riscando bem fundo com a chave que trazia. Claro que tudo foi filmado e fotografado e o dito cavalheiro, ao ser confrontado com as provas do delito, pagou nada mais que 1000 contos pelas pinturas, para que não fosse apresentada queixa à polícia, e não ficou com as provas (uma pessoa com dinheiro e com nome na praça, imgina!). Não critico a tua atitude e compreendo-a. O essencial é haver boa vizinhança e inter-ajuda, pois quem vê caras, não vê corações, daí a tua surpresa. Uma Bjoka grande Leonor e uma boa semana

10:24 PM  
Anonymous Anonymous said...

Olá, Leonoretta!
Bem, é um relato que nos ajuda a reflectir na forma como gerimos os nossos comportamentos.
No caso em concreto, e se tivermos em consideração que a pessoa em causa praticou um acto reprovável, ela deve sofrer as consequências do acto que praticou.
Se formos firmes e procedermos em conformidade, é assim que devemos actuar. Só assim estaremos a ajudar os intervenientes. Em primeiro lugar o prejudicado, em segundo lugar o infractor, porque é uma pedagógica de não voltar a incorrer no erro.
Mesmo que seja alguém conhecido, é a melhor forma de o ajudar.
Tema interessante.
Beijinho
António

11:26 PM  
Anonymous IO said...

Ou seja… tens toda a razão:
É-se mais livre quanto mais responsáveis formos pelas nossas escolhas.
Um beijo, IO.

1:37 AM  
Blogger Ivo Jeremias said...

Olá,
passei apenas para retribuir a visita que me fizeste. Adorei o teu blog, e a partir de hoje serei um leitor regular.

Um abraço grande.
P.S:
"E enquanto ouvir as cigarras e os pássaros a cantar penso que ainda há uma réstia de vida no planeta" - adorei este excerto...

Quanto a Kant... devo confessar que não o aprecio muito...

9:36 AM  
Blogger CP said...

"É-se mais livre quanto mais responsáveis formos pelas nossas escolhas"

A qualidade da nossa vida depende em muito dessa frase.

12:17 PM  
Blogger O Micróbio said...

Sem dúvida... aliás a palavra "liberdade" sem a responsabilidade anexada, acaba por não ser liberdade mas sim "libertinagem"...

12:48 PM  
Blogger Caracolinha said...

Adoro Kant ...

Adorei especialmente esta frase ... é-se mais livre quanto mais responsáveis formos pelas nossas escolhas ... a isso se chama maturidade, para assumir o fazer há que saber assumir a hipótese de errar, e isso implica ser-se responsável para assumir que nem sempre as escolhas foram as mais acertadas.

Ainda assim, mais vale aprender mesmo que se erre do que se ser ignorante porque não se tentou ...

Beijinhos GRANDES minha linda ~:o)

1:34 PM  
Blogger Leonoretta said...

Amita
Adoro quando passas por aqui e falas comigo assim longamente como no jantar do Fernando


António
De repente há aqui já dois antonios, rs
O problema está em agirmos em conformidade quando o mau da fita é nosso amigo, rs


Chinga
Viva! Então e desta musica gostas?


Ivo
Fico contente por teres gostado do Ex. tambem gostei do teu.


Cp
Sim. Mas penso que ha que interioriza-la desde pequenos para que funcione em adultos.
Na escola, na escola…..


Carlos
Muito bem visto o teu “jogo” de palavras.


abraço da leonor

1:40 PM  
Blogger António said...

Obrigado pela visita ao meu blog.

E tu tens boa memória... nunca te esqueces de lá ir...eh eh

Jinhos

1:40 PM  
Blogger António said...

Leonor, querida!
Mas o que eu disse foi isso mesmo.
És uma leitora e comentadora assídua das minhas histórias.
Obrigado por isso!
Jokinhas

2:37 PM  
Blogger NightWolf said...

Vamos nós tentar entender o mundo em que vivemos, hoje vou agir amanhã vou calar... sempre será assim, cobarde aquele que ataca pelas costas e na calada de uma chave.

6:00 PM  
Blogger Apenas, o cidadão said...

ora bem. dilema interessante. a moral é tão subjectiva... já pensou qual poderá ter sido a razão dessa pessoa para ter feito o que fez? nada se faz por acaso. e o que é o mal? pode ter sido uma maldade... pode ter sido movida pela inveja, pela ira ou pelo contrário pode ter sido levada por uma sede de justiça.

8:13 PM  
Anonymous VP said...

Eu sei qual foi a razão: o nosso prédio e todo o passeio bloqueado por carros estacionados a bloquear tanto a entrada/saída de casa como a circulação no passeio. Agravando, o marido da dita senhora tinha sofrido de um AVC e só amparado podia caminhar, nunca no espaço que lhe estava restando, a estrada. Os nossos carros também não foram poupados à fúria da senhora, que pela idade nem sabia distinguir os carros amigos dos inimigos, eram todos da "oposição".
Mas de outro vizinho ainda foi pior, os nossos 3 carros foram alvejados a tiro...só porque ele nunca engraçou que tivéssemos mais dois que ele.

10:08 PM  
Anonymous Filipe Freitas said...

Excesso de liberdade e falta de responsabilidade, tristemente "ligadas"...
E o egoismo de algumas pessoas ?
É por isso que aprecio também a natureza, as cigarras, neste caso. Costumo passar numa estrada que tem uns 3 quilómetros: é maravilhoso ouvir milhares de cigarras a cantar no arvoredo de ambos os lados...
Um abraço.

3:46 AM  
Blogger Leonoretta said...

António
A minha memoria é de elefante, rs


Wolf
Grande verdade a que tu disseste agora


Cidadão
Tens razão. A moral é subjectiva. A ética é que supostamente é que não é.


VP
Ainda a revolta contida na garganta…


Filipe
O cantar desses insectos é uma “aparição”


abraço da leonor

11:33 AM  
Blogger Menina_marota said...

Um tema complicado e bem real!
E, lembrou-me um cena a que assisti há anos. Uma vizinha minha, esvaziava assiduamente os pneus a uma outra. (Vi a cena, pelo menos 2 vezes) Até que uma das vezes, o filho dessa vizinha (a dos pneus vazios) sentiu-se doente e precisou de ir ao hospital. Ela não tinha carro e teve que chamar a ambulância. Aquilo revoltou-me tanto, que no dia seguinte, procurei a dita senhorae com toda a franqueza falei com ela. Disse-lhe que a tinha visto esvaziar os pneus, e que qual fosse os motivos que a levava a tomar tal atitude, era incorrecto, seria mais correctos, falar directamente com a pessoa a quem estava a causar problemas. Ela ao princípio tentou negar, mas depois acabou por se desculpar, com motivos que me neguei a ouvir.
A vergonha dela foi tal, que ao fim de 3 ou 4 meses colocou o apartamento para venda e saiu dali.
Nunca mais apareceram pneus furados no estacionamento.

Um abraço ;)

1:00 PM  
Blogger amita said...

Minha querida amiga, obrigado pelas tuas palavras. Também adorei a nossa conversa e lamento não estarmos mais perto. Volto sempre para te ler, talvez não tão assiduamente como desejava.Não fiques triste e escuta: a musa das palavras abandonou-me, temporariamente.
Mas estou feliz porque o mesmo não aconteceu contigo.Entretanto, podes ler-me no brancoepreto do Sapo. Uma bjoka grande
P.S.: Sem promessas, voltarei mais tarde.

1:41 PM  
Blogger amita said...

Voltei para te dizer que estou feliz por ver os elos que se criam.
Bjokas grandes e um excelente dia

1:44 PM  
Blogger th said...

É o preço da Liberdade...a escolha com escolhos...eu sei o que faria, dependendo das circunstâncias, poderia ou não agir, mas sempre de maneira que a minha consciencia ditasse. Beijo th

6:25 PM  
Anonymous Anonymous said...

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4:34 AM  
Anonymous Anonymous said...

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11:56 PM  
Anonymous Anonymous said...

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12:23 PM  
Blogger Beatriz J said...

Olá Leonor, gostei deste blog. Ainda está activo?

3:47 PM  

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