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Mínimo sou, mas quando ao Nada empresto a minha elementar realidade, o Nada é só o Resto. Reinaldo Ferreira

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Dizem que sou como o sol mas com nuvens como na Cornualha

Saturday, June 17, 2006

Um tudo quase nada

Estou na minha casa. Mas ainda não é de vez. A médica deu-me oito dias para me recompor novamente da minha entropia orgânica. Já não sei se é físico, ou psicológico, ou físico e psicológico. Como diria Leonard Wiberly: o erro pode ser seu, ou meu, ou nosso.

Quando entro no consultório chego tão fraca que nem força tenho para falar. Não preciso. A médica começa a sua verificação de ataque quando alguém está “moribumdum” ( o estado anterior a Rigor Mortis). Vê-me o pulso, a dilatação da menina do olho, a língua. Sussurro trinta e três. Ela passa-me uma, duas, três receitas.

Longe, não sei onde, oiço a Ana: tu só precisas de um tornedó mal passado e de ouvir “Love me do” dos Beatles (li isto num livro de J. K Jerome, Três homens num bote e nunca mais me esqueci.).

Saio do consultório a cambalear ajudada pela segurança inabalável da parede do corredor. Carimbo as receitas e o atestado para oito dias. O ar da rua sem o cheiro fétido das queixas dos utentes sobre o sistema de saúde acorda-me de rompante para a surpresa da realidade. Olho o relógio. Cinco e meia. Tenho meia hora. Tiro o carro do estacionamento de marcha à ré sem olhar para trás. Faço a descida mais ou menos a uns oitenta km por hora. Vejo o semáforo mudar de verde para amarelo e de amarelo para vermelho. Passa rápido! Nem sinais da polícia e se ela aparecer logo se vê!

Chego a casa. Mas não a minha casa. Subo a correr as escadas que levam ao salão. Leva-me à gare? O sogro larga tudo. Pego na minha mala como está. Deixo para trás a escova do cabelo, o secador e o creme hidratante com que costumo enganar-me ao espelho. Apanho a camioneta para Lisboa no último minuto.

Estou na minha casa. Mas ainda não é de vez. Os oito dias estão quase passados. A desorganização orgânica continua. Moribundo, moribundi, moribundum. Ou será moribundo, moribundae, moribundam?
Sento-me à secretária no meu canto da janela. A minha árvore está repleta de folhas. Este ano dei por elas todas de repente.

Ana olha para mim com um sorriso cheio de paciência.

- Está quase! – arrisca ela ao meu pensamento.
- Oh Ana! O quase quase nada pode ser um quase quase tudo.
- E essa leste onde? – perguntou rindo.
- Numa canção do Paulo Gonzo, acho eu.
- Não é bem assim mas também pode ser.


Da Leonor

25 Comments:

Anonymous JMC said...

Estou a ver que este ano lectivo, que agora se aproxima do fim, está a deixa-la arrasada, pode ser que com o fim á vista, a ansiedade aumente, e fique ainda mais fragilizada, mas, tem de haver mais um pouco de espirito positivo de sacrificio e depois, dentro de alguns meses verá que afinal até teve algo de positivo e enriquecedor, deve ser para si o mesmo que ter cumprido um pequeno serviço militar (mas sem arma), vai concerteza lembrar-se das historias passadas (algumas já partilhadas, aqui), de pessoas com quem conviveu e de possiveis amizades que entretando foram criadas e então 'Um nada quase tudo', vai chegar.

Bom fim de semana.

JMC

11:17 AM  
Blogger António said...

Querida Leonor!
Um texto de cariz muito pessoal, sem ser intimista.
Uma boa linguagem e o habitual humor.
Muito bem, minha amiga!

Beijinhos

3:05 PM  
Blogger Betty Branco Martins said...

Minha querida Leonor

Estás doente?

Ao que parece, pelo que acabei de ler neste teu post, não estás muito bem!!! :((

Também deve ser cansaço, estamos no final do ano lectivo.


Desejo que fiques bem rapidamente e que volte tudo ao normal na tua vida.

Beijos com muito carinho

5:33 PM  
Blogger alice said...

querida leonor,

fiquei preocupada com este post

então tens estado menos bem?

espero que não seja nada grave

nada como um bom descanso agora

um grande beijinho e os meus melhores pensamentos

alice

6:31 PM  
Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Leonor
As doenças multiplicam-se na relação directa de tudo e de quase nada... mas essa escrita melancólica foi o maior sintoma de que te falta mesmo "estroinar" (lindo verbo!) um pouco e saltar adiante.
As melhoras...
Um beijo
Daniel

7:54 PM  
Blogger augustoM said...

O quase tudo é o mesmo que o quase nada, depende do ponto de vista.
Espero que a tua doença seja um quase nada.
Um beijo. Augusto

9:06 PM  
Blogger Leonoretta said...

para JMC

a sua análise do meu fim de ano é perfeita.

abraço da leonoreta

9:28 PM  
Blogger APC said...

Lindo nome, bela idade, bom signo, excelente blog!!!
Ainda só li um texto (era suposto eu estar a trabalhar!), mas tenho já a certeza de que lerei todos :-)
Bem-haja(s) & prontas e definitivas melhoras, com um abraço!

PS - Cheguei aqui através de uma Alexandre Sousa, que, aparentemente, terá visitado ambos os nosso cantinhos.

9:40 PM  
Blogger AS said...

Querida Leonor,
Precisas de descansar e sobretudo ver verdadeiramente a causa desse teu mal estar.
Um quase nada pode ser um quase tudo! Eu sei do que falo!...

Um beijo...

11:52 PM  
Blogger lena said...

'Um nada quase tudo', querida Leonor pode bem ser um principio de um quase tudo,
o ano está a chegar ao fim, o stress não é bom conselheiro, a fragilidade toma conta de tudo e quando menos se espera o tudo acontece,
tenta descansar, se oito dias não chegam fica quinze,
está tudo pronto praticamente, falta a despedida e sei que custa na altura das renovações das matriculas e das avaliações,
já tudo está praticamente feito, não deixes que a emoção tome conta da tua fragilidade, eu sei que é bom dizer o pior é quem passa por isso
descansa por favor é um pedido de quem sabe o que lhe aconteceu

o meu beijo para ti e um abraço com muita ternura, minha doce e linda amiga

lena

10:49 AM  
Anonymous Ana Joana said...

Bela Leonoretta,
Somos os unicos responsáveis pela gestão das nossas vidas. Acredito que o somos desde sempre. As escolhas que fazemos são totalmente da nossa responsabilidade. Assim e contrariando Leonard Wiberly, o erro só pode ser "meu" ( ou teu neste caso). É domingo, dia "santo de guarda". Dia supostamente de paz, como de paz queremos que sejam todos os nossos dias. Seja em que casa for.
Vai lá comer o tornedó mal passado e olha pra ti com olhos de paixão. Enquanto não te apaixonares por ti, minha linda, não haverá "segurança inabalável da parede do corredor" que seja suficientemente segura e inabalável. Nem o universo será suficiente.

Já é tempo de pores a Leonor a fazer uma verdadeira reciclagem para que perceba o que vale realmente a pena. A Ana está prá ajudar. Nós todos, aqui e acolá, para te reconhecer o valor e o prazer de te termos no mundo. Porque tu, VALES MUITO A PENA.

Beijinhos e uma rica semana
Ana Joana

11:13 AM  
Blogger Leonoretta said...

para Ana Joana

Penso que a Leonor sabe muito bem o que quer e o que pensa.

a sua eterna crise advém do facto da grande vontade de querer ser ubíqua e não poder sê-lo.

por outro lado, muitas vezes na sua criação de textos algumas palavras aparecem apenas pela tentativa da metáfora.
como na poesia quando se procura a palavra para fazer a rima.

é autor e personagem cada um para seu lado, rsss

beijinhos da leonoreta

1:28 PM  
Blogger LEONOR C. said...

Passei por aqui e deixo o meu voto de boas melhoras. Já está a chegar o descanso merecido ao fim dum ano intenso. Acredito que as saudades vão ser de parte a parte. As crianças dão-nos muito!

11:05 PM  
Blogger Barão da Tróia II said...

Fica bem, depressa. Ergue a cabeça respira fundo e segue em frente. Ah! Continua a escrever aqui.

1:35 PM  
Blogger José Manuel Dias said...

Parabéns! O optimisto deve ser sempre a nossa bandeira...

2:07 PM  
Blogger António said...

Querida Leonor!
Só quero agradecer o comentário tão generoso que deixaste no meu último post.

Beijinhos

10:55 PM  
Blogger SaltaPocinhas said...

as melhoras! vais ver que no fim do mês vais ficar milagrosamente curada e não te cobro nada por esta consulta!!

1:53 AM  
Blogger Mocho Falante said...

andas doente Leonoreta???
Espero que estejas melhor é que ler estes teus textos deixam-me encantado

beijocas e as melhoras

5:56 PM  
Blogger travessias said...

Fica bem. Depressa. Por ti e por nós.
Um abraço. Zé

12:03 PM  
Blogger a sua vizinha said...

Ó vizinha Leonoreta, espero que esteja melhor. Então logo agora que eu queria convidá-la para uma sardinhada...

10:23 PM  
Anonymous batista filho said...

Leonor, o texto, sempre gostoso de se ler. Quanto à tua saúde... peço a Deus que estejas melhor, amiga querida. Tudo de bom para ti e para o VP.

4:02 AM  
Blogger Betty Branco Martins said...

Queridas Leonor

Como é que estás?
Espero que já estejas bem mrlhor:))

Beijinhos cheios de carinho

BomFsemana

4:18 PM  
Anonymous arte por um canudo said...

O final de ano lectivo está a chegar! O retempero de forças chegará. Espero que seja passageira e que voltes às tuas lides com a pujança que te caracteriza.As melhoras. Bjs

4:21 PM  
Anonymous Cris said...

Se olhares para o copo e me disseres que está meio cheio dou-te um sorriso.
Se me disseres que o VP o acabará de encher, tens um beijo imenso.
Se me sorrires, depois de tudo, prometo que vou buscar outro copo. Dividimos uma parte da agua pelos dois. Bebemos, gargarejamos, vais desatar a rir e eu também pela figurinha que vamos fazer as duas.
E depois, agora sim, a parte mais deliciosa. Vamos buscar detergente da louça, dois carrinhos de linha de qualquer cor :-) e molhamos o carrinho naquela mistela e sopramos.
Gostas de bolas de sabão?
Eu desgraçava os carrinhos de linhas à minha mãe, mas, digo-te, para além de ficar com a boca a arder (rsss) era uma delícia ver as bolinhas multicolores.
Vês que te fiz rir?
Beijitos, Linda *******
Vá, meu doce! Sempre esse copo meio cheio, ok?

11:13 PM  
Blogger silencebox said...

este texto deixou-me preocupada!Espero que já estejas boa!
Tens de descansar plenamente... As férias dos professores já estão à vista... tens que aproveitar bem estes dias, cuidar de ti, da tua saude, pensando também tudo com optimismo e nas coisas belas e positivas.
Um abraço carinhoso

6:11 PM  

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