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Mínimo sou, mas quando ao Nada empresto a minha elementar realidade, o Nada é só o Resto. Reinaldo Ferreira

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Dizem que sou como o sol mas com nuvens como na Cornualha

Saturday, March 18, 2006

"You have got to get in to get out" (Carpet Crawlers, Genesis)

Ana arruma as gavetas do móvel da sala. Leonor entra devagar e, lentamente, passa o indicador direito pelas lombadas dos livros arrumados na prateleira como se ao passar o dedo pelos títulos fizesse uma segunda leitura das palavras já lidas.

- Estás desanimada. – disse Leonor, continuando a percorrer com o dedo, não agora os livros mas a aresta da estante.

- Eu? E porque dizes isso? – perguntou Ana, curiosa, sem parar o que estava a fazer.

- Quando estás em baixo arrumas gavetas. Podias ir ao psicólogo, mas preferes arrumar gavetas.

- É realmente uma terapia muito boa. Já a pratico há alguns anos largos. Li-a no Reader’s Digest ou coisa assim. No final ficas com a alma mais leve e a gaveta arrumada. – esclareceu a Ana.

- Hum!

- E tu estás ansiosa. – disse a Ana.

- Eu? E como sabes?

- Mente ausente. Olhar perdido. Qual é o dilema desta vez?

- O do costume.

- Tens uma porção deles que são “o do costume”. – sorriu ironicamente a Ana. - Por isso, especifica.

- Se aquilo que constitui a minha vida é uma sucessão de factos independentemente da minha vontade ou se é um conjunto de factos sem causa aparente.

- Oh! Esse! – e Ana acenava a cabeça afirmativa e demoradamente, mostrando já conhecer a crise que se aproximava.- Queres saber o que penso?

- Sim. – Mas o sim de Leonor era pouco convidativo. Já sabia que o pragmatismo de Ana concluiria a conversa e não satisfaria as suas incertezas.

- Penso que… - parou a olhar o marcador de livros em veludo vermelho com uma pena e um tinteiro em estanho que a Nadine, a companheira de curso que durante quatro anos concordou com todas as vontades de Leonor nos trabalhos, trouxe dos Estados Unidos. Na verdade, Ana tentava ganhar tempo para responder. - … penso que… realmente há um destino já determinado para cada um. Mas que, independentemente disso, podes escolher as voltas que quiseres para lá chegar. Inclusive, podes escolher as voltas que quiseres para não lá chegar.

- Então? – quis saber a Leonor.

- Olha o Édipo por exemplo. Ao saber do destino do seu inevitável incesto fez tudo para o evitar e sempre que agia avançava um passo na direcção da fatalidade. Ou seja, como dizia o nosso Agostinho da Silva “remava contra a maré a favor da maré”.

Leonor começou a percorrer novamente com o indicador toda a extensão da parede da sala, dando a volta às quatro paredes, como se o dedo fosse a ponte para a feliz explicação do inexplicável.

Ana segurava agora na mão um pequeno pedaço de papel, imitando papiro, com uma frase escrita.

- Para que queres tu um bocado de papel com mau aspecto numa gaveta? – perguntou, esperando autorização para deitar fora. – Já agora, o que é que te está a pôr assim tão apática?

- O concurso de professores. Já começou.

- Tem calma. Vai tudo correr bem, vais ver.

- Pois! Mas de que serve eu preencher os papéis se já está estipulado o sítio para onde vou?

- Tu sabes que “ele” lá em cima não pode preenchê-los. Tens que ser tu a fazer o que “ele” já decidiu para ti.

Leonor suspira. Esmurra a parede com as duas mãos na sua impotência de conhecer o futuro. Recolhe-as debaixo dos braços para que a dor passe.

- Não deites isso fora. – diz Leonor resignada mas não convencida. E sai da sala.
Ana fica a olhar para o papel “You got to get in to get out”.


da Leonor

36 Comments:

Blogger António said...

Querida Leonor!
Já percebi que postas aos sábados. Vim aqui espreitar e...já cá estava o teu texto semanal.
Desta vez tivemos mais uma conversa da Ana com a Leonor, ou da Leonor com a Ana. Conversa um tanto metafísica mas que, sobretudo na parte final, mostra a fina ironia com que sabes escrever.
Gostei!
Aliás, gosto sempre (ou quasi sempre, para não parecer faccioso)!

Beijinhos

3:41 PM  
Blogger augustoM said...

Sou o primeiro, nesta nossa parceria simultânea de publicação semanal.
Gostei do tema abordado e sobre tudo a maneira como o fazes. O destino.
Agostinho da Silva, na minha opinião anda perto da questão, quando diz "remar contra a maré a favor da maré". Dizem que temos o destino traçado, e que nada o pode alterar, por muito pensemos que sim. Meia verdade meia mentira, se considerarmos que o nosso destino depende do destino de um todo em que estamos inseridos, logo ao fazermos parte desse todo também podemos de certa forma interferir no nosso, o livre arbtítio, só que quando o resultado das opções não são as que desejamos, fadistamente, dizemos que a culpa é do destino.
Um beijo. Augusto

3:45 PM  
Blogger A.J.Faria said...

Olá,Leonor!
Mais umm interessante diálogo que nos reservaste para este fim de semana.
O que é o destino, senão aquilo que pensamos que poderá acontecer, e que não temos a mínima hipotese de alterar.
Enfim, será apenas mais uma definição, mas que nunca deve levar-nos a cruzar os braços à espera que tudo se resolva sem a nossa intervenção.
Bjs

7:45 PM  
Anonymous José Gomes said...

Ana, Leonor, Agostinho, destino... faz-me lembrar qualquer coisa quando eu andava com a mania de apanhar arco-íris, ou saber onde começavam e terminavam, o balde de moedas...
Bom, mas isso foi passado. Com pena, mas são gotas num mar de chumbo...
Estás a postar ao sábado e ao ler o teu texto tento perceber como é que te vais desenrascando nesne norte que detestas...
Desta vez toma atenção aos concursos...
Gostei muito de te ler, minha amiga.
Um abraço

8:52 PM  
Blogger isa xana said...

«… penso que… realmente há um destino já determinado para cada um. Mas que, independentemente disso, podes escolher as voltas que quiseres para lá chegar. Inclusive, podes escolher as voltas que quiseres para não lá chegar.»... tive a pensar no que diria eu se fosse eu que tivesse que dizer o que penso sobre o tema... humm provavelmente perguntaria se ela queria um chá e pronto

beijitos

9:21 PM  
Blogger lena said...

Adoro as conversas entre a Leonor e a Ana e o tema excelente como o abordas

o destino...

e vais lembra-me de cada coisa, pois já começou e 2ª começam já algumas validações

hoje não quero pensar nisso, vou também arrumar gavetas


beijinhos muitos para ti menina linda

lena

11:03 PM  
Blogger Betty Branco Martins said...

Querida Leonor

Nós somos mesmo "touros puros"

Quando algo me atormenta: arrumo gavetas e livros - está tudo estragado!!!

A Ana tem razão, vai correr tudo bem, minha querida :)

(amanhã vou actualizar o "Leituras")

Desde que estou na Sociedade Nacional de Belas Artes, que as coisas não têm sido fáceis, no que diz respeito a tempo. Por isso tive que "adormecer" o "Contos".

Beijinhos - uma flor - um:) numa caixa/amizade, embrulhada num papel-azul/ternura.

11:19 PM  
Blogger AmigaTeatro said...

Um beijinho, Leonor :))*

12:02 AM  
Blogger O Micróbio II said...

Atenção que o Micróbio mudou de casa...
Agora está numa nova rua: http:\\o-microbioii.blogspot.com

12:29 AM  
Blogger Caracolinha said...

Absolutamente deliciosa e avassaladora a forma como escreves minha querida Leonor ... muito psicanalítica e assertiva .... gosto da forma como te aventuras pelas palavras e como torna a tua escrita leve e ao mesmo tempo tão intensa .... é sempre um prazer (re)ler-te ...

Beijinhos encaracolados e cheios de admiração e amizade :))))

12:38 AM  
Blogger travessias said...

E um bom fim de semana.
( Continuas por Fão ou com isso dos concursos vais mudar de sítio ? )

8:02 AM  
Blogger Henrique Santos said...

è um drama anual dos professores, e nele não se contém méritos, condições pessoais, circunstanciais, enganos, etc... Nem Deus alinha no destino de cada um, porque se negaria a Ele próprio, e cadê o livre arbítrio?
Desejo nesse concurso o melhor para ti, professora de corpo inteiro, mas também mulher, mãe, e dona de casa...
Mas está um texto filosófico q.b. bem construido como é hábito, que a gente gosta que se farta!
Bjinhos Ricky

8:52 AM  
Blogger António said...

Minha querida Leonor!
Obrigado pelo teu comentário ao segundo diálogo da série "Diálogos de gente".
O ciúme é um comportamento que pode variar de quasi ausente a extremos patológicos.
Limitei-me a escrever uma "short story" em diálogo, deixando uma enorme margem para os leitores poderem reflectir.

Beijinhos

3:52 PM  
Blogger AS said...

..." Se aquilo que constitui a minha vida é uma sucessão de factos independentemente da minha vontade ou se é um conjunto de factos sem causa aparente."

No dia eu que soubermos a resposta, achas que a vida fará mais algum sentido Ana?

Um abraço...

3:52 PM  
Blogger Menina_marota said...

Pois é... uma conversa muito séria e realista, descrita de forma magnifica: o concurso dos Professores...
Vai tudo correr bem, vais ver... Tens aqui um montão de gente a torcer por ti e, eu estou na frente!

Beijo :)

5:56 PM  
Anonymous Arte por um Canudo 2 said...

Mais um excelente diálogo entre a Ana e a Leonor.Bem "postado" como se diz na linguagem blogueira.O destino na minha opinião não está traçado, porque existe sempre outra forma de reagirmos aquilo a que achamos que é o destino, geralmente associado a alguns azares e fatalidades.Não podemos ficar é parados, devemos reagir porque existe sempre a possibilidade das coisas mudarem.Se todos pensarem como a Ana,se ela pensa não concorrer, aí podes ter a certeza que o destino já está traçado.Boa semana.

5:57 PM  
Anonymous Cris said...

Há muito que deixei de fazer grandes planos...na volta, sai tudo ao contrário e lá fico eu a olhar "o copo meio vazio..."
Valha-me o meu bom humor para depressa conseguir olhar o copo meio cheio :-)

Beijo, Leonor.
Não é só o destino, Amiga.
Nós temos um papel importante no decorrer da nossa vida.

Quanto ao concurso, vou juntar-me a todos os que aqui já postaram e fazer força para que fiques bem colocada, se não onde moras, pelo menos o mais próximo possível!
Ânimo, amiga.
Tens o VP contigo, tens a Ana, tens um monte de amigos (todos nós) que te achamos o máximo!)

Beijitos muitos e um resto de domingo feliz.
Cris

PS: Adoro Génesis. Bela escolha!

7:51 PM  
Anonymous Anonymous said...

Eu gosto de pensar que sou dono do meu destino e que nada se faz sem a minha prévia autorização. Talvez me sinta poderoso e esqueça que afinal sou um grãozito de areia neste mundo a que pertenço. Arrumar gavetas como terapia...Ah, como eu gostava de ser assim...Sempre arrumava mais coisas em casa.

A vidita não me tem permitido actualizar as visitas a que sempre me propus e muito prazer me dão. Já te tinha saudades. Um beijinho.

1:10 AM  
Anonymous ferrus said...

Eu gosto de pensar que sou dono do meu destino e que nada se faz sem a minha prévia autorização. Talvez me sinta poderoso e esqueça que afinal sou um grãozito de areia neste mundo a que pertenço. Arrumar gavetas como terapia...Ah, como eu gostava de ser assim...Sempre arrumava mais coisas em casa.

A vidita não me tem permitido actualizar as visitas a que sempre me propus e muito prazer me dão. Já te tinha saudades. Um beijinho.

1:10 AM  
Blogger Mocho Falante said...

Arrumar gavetas é um bom exercicio e depois, não vale a pena preocupar-nos com muita antecedência, o que tiver de ser será e depois quando chegar a hora lá terás tempo para te preocupares e depois...depois eu tenho a certeza que tudo irá correr pelo melhor...positive vibes

Beijocas doces

12:32 PM  
Blogger Mata Hari said...

Bom eu é mais já sei para onde não vou. è uam fase complicada esta dos concursos dos professores.

11:32 PM  
Blogger Apenas, o cidadão said...

pelo que tenho lido, escutado e experenciado penso existir um determinado raciocinio claro que consegue com que os conceitos de livre arbitrio e de destino sejam coerentes e não contraditórios.

aliás, os sábios, de diversas perspectivas contam-nos sempre as mesmas verdades.

apesar de ainda não ter as coisas bem resolvidas consigo achar alguns pontos comuns e lógicos:

Tudo está em movimento. Tudo. Nós que fazemos parte do Todo somos por um lado parte que condiciona o Todo pela nossa vontade, no entanto, também somos resultado, ou vivemos numa massa que não controlamos que é gerado pelo Todo exterior.
tentando simplificar:
Sendo professora numa escola, dá aulas da melhor forma que sabe. essa acção de ensinar parte de si, é a Sua vontade, é sua forma de influenciar o todo (neste caso a escola). mas o Todo, os alunos, os funcionários, os pais, as instalações, etc também estão em constante movimento e contribuem para o Todo no qual se inclui e é influenciada.

se existe a chamada alma do mundo, do universo, Deus, o criador, o cosmos, etc... que regula tudo isto então poderiamos concluir que seria a vontade dessa alma que constroi e destroi e por isso nós não teriamos qualquer livre arbitrio visto sermos resultado de uma grande arquitecto. mas se calhar essa alma do mundo e´exactamente o resulçtado de todas as interacções de Tudo. isto remete para a questão lógica. Como é que isto tudo começou? o que é o Sempre? um sempre que nunca teve inicio! o alfa e o omega, o eterno ciclo, etc...

vou parar por aqui porque também já não sei o que escrever mais. muitas voltas mas penso não ter ficado no mesmo ponto.

boa sorte para o concurso.
Dizem os sábios que a nossa vontade tem um imenso valor e que o facto de acreditar num determinado resultado (neste caso o do concurso) é desencadeada uma determinada energia nesse sentido.

fique bem

1:31 AM  
Blogger alice said...

boa tarde, leonor ;)

senti necessidade de passar nesta casa de bem, hoje, para sentir uma atmosfera serena em torno de mim, num dia que começou muito escuro

e agradeço naturalmente as tuas palavras sempre muito válidas

vou linkar-te ;)

beijinhos, alice

2:14 PM  
Blogger mixtu said...

o destino...existe ou é quimera...
jinhos

9:29 PM  
Blogger silencebox said...

Concurso de professores... já começou!Desta vez tens de ter cuidado a preencher os dados... lembro-me no que te aconteceu no ano passado, que tinhas trocado os numeros das escolas...
Percebo a tua ansiedade... agora as coisas serão diferentes, o contrato para ficar numa escola será 4 anos... Mas acredito que tudo te correrá bem! Fico a torcer por ti!
O texto está muito bem elaborado, com dialogo e tudo. Não conhecia esta frase do Agostinho: “remava contra a maré a favor da maré”, é bem verdade!
Boa sorte!!!
Um abraço apertado e cheio de admiração!

5:39 PM  
Blogger O Micróbio II said...

Hoje o Micróbio faz anos... :-)

9:15 PM  
Anonymous batista filho said...

Dessa vez preferi comentar via e-mail.
Deixo-te o meu abraço fraterno.

11:53 AM  
Blogger JLBM said...

Olá passei por aqui só para dizer que quando venho passear pela net, tambem passo por aqui... :)

3:32 PM  
Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Leonor
Obrigado por nos recordares uma bela música da "maior" banda do mundo: os Genesis. Cantei-a muitas vezes!
Quanto à tua história que dizer? São coisas da vida... como diria a outra.
Um beijo
Daniel

4:06 PM  
Anonymous JMC said...

Comentar este tipo de post, que a Leonor escreve, é para mim sempre muito complicado, fico até algo constrangido, porque muitas vezes não consigo, interiorizar, estar dentro do que psicologicamente se passa entre as duas, e isso deixa-me com um sentimento de frustação, compreendo o texto, o assunto abordado, a ansiedade a expectativa á volta de uma tema importante e decisivo, mas!!!, falta-me qualquer coisa, há qualquer coisa que me escapa, que não consigo 'ver', percebo, que a Leonor, quando tenha que debater este tema com o mais comum dos mortais, já está absolutamente preparada, pois já 'dialogou com a Ana', e dessa troca de impressões fica muito mais fortalecida, com mais capacidade de argumentação, mais confiante.

Boa sorte para o concurso.
bom fim de semana.

JMC

5:24 PM  
Blogger Leonoretta said...

para JMC

olá JMC

diz que é para si dificil comentar... mas eu não concordo. até os seus comentários são sempre muito a propósito, dotados de um espírito aguçado sobre o que lê naquilo que escrevo.

o seu comentário é, como diria Alberto Caeiro , já um comentário que eu muito aprecio.

abraço da leonoreta

12:22 AM  
Blogger a sua vizinha said...

Interessante a conversa entre as duas amigas sobre o destino, tema que eu própria mutas vezes abordo. Não creio que tenhamos um destino-infalível marcado senão não existiria o livre arbítrio. Contudo há coisas que vão para além da nossa vontade. O destino é aquilo que fazemos e o que deixamos de fazer.
Arrumar gavetas é uma terapia que dá os seus resultados satisfatórios e sai mais barato do que ir ao psicólogo... Quanto ao resto, tudo irá correr bem.
Bom fim de semana e pensamento postivo!

Beijinhos

8:48 AM  
Blogger AmigaTeatro said...

Um beijo,
Leonor :))*

1:11 PM  
Anonymous Anonymous said...

Very nice site! »

4:10 PM  
Anonymous Anonymous said...

Cool blog, interesting information... Keep it UP digital printing

9:58 PM  
Anonymous Anonymous said...

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12:37 PM  

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