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Mínimo sou, mas quando ao Nada empresto a minha elementar realidade, o Nada é só o Resto. Reinaldo Ferreira

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Dizem que sou como o sol mas com nuvens como na Cornualha

Sunday, September 04, 2005

Signo: Significado e Significante


Segundo Ferdinand Saussure, o signo linguístico é formado pelo significado, a que corresponde um conceito e, pelo significante, a que corresponde uma imagem acústica ou gráfica do conceito.

Deste modo, podemos dizer que o signo é uma entidade de duas faces, o significado e o significante, intimamente ligadas, que se reclamam reciprocamente quando comunicamos.

É assim que ao significado da palavra galinha atribuo a imagem de uma ave de crista carnuda e asas curtas e largas, frequentemente criada em capoeiras e muito usada na alimentação humana. Animal pouco inteligente, demasiado eléctrico que se movimenta em passadas curtas sem orientação pré determinada, sempre debicando qualquer coisa que ela veja pelo instinto de encher o papo grão a grão.

À ideia de galinha ocorrem-me logo algumas perguntas de grau intelectual mais ou menos profundo, que me deixam sempre num estado de confusão mental por nunca passarem de hipóteses meramente académicas.

A velha questão “qual apareceu primeiro? a galinha ou o ovo?”, remeto-a logo para um tempo de quando as galinhas tiverem dentes. Mas, por exemplo, porque é que eu nunca vi uma galinha atropelada?






A galinha

Está uma galinha
na berma da estrada.
Não olha para si,
para dentro ou para fora,
não olha para nada.

Quem sabe se olhando
para dentro de si,
não via outra estrada
com outra galinha
na berma, parada?

Que há coisas assim,
sem ter explicação...
Parece que o tempo
sempre em frenesim
de um lado para o outro,

ao ver tal galinha,
se senta no chão!


De Maria Alberta Meneres


Mas, deixem-me contar uma história triste e verdadeira que me ocorre sempre à memória pela associação da palavra galinha.

Mais ou menos em 1994 passava diariamente na televisão pequenas metragens, a preto e branco, com a duração de um minuto, mostrando imagens da guerra na Ex Jugoslávia, que tinha começado dois anos antes.

As imagens mostravam sobretudo os dias instáveis de pessoas que não percebiam a guerra devido a diferenças étnicas, porque a convivência até alia tinha sido possível e agora descambava nos piores ódios.

Uma dessas metragens ficou para sempre na minha memória. Um homem tinha perdido toda a sua família mais próxima. A mulher e todos os seus filhos. Vivia no meio de escombros mais ou menos afastado das zonas de tiroteio. Todos os dias, saía à procura de algo para comer. Um dia encontrou um tesouro: uma galinha. Rindo, de sorriso magoado, contou como foi difícil apanhá-la. Conseguiu arranjar um bocado de fio e andava com a galinha pela mão como se fosse um cão.



In Mil Imagens


A jornalista perguntou-lhe porque razão, tendo ele fome, não matava a galinha e a comia?

A galinha serviria só para ele comer uma vez. Nos outros dias ele continuaria com fome. Se ele a matasse ficaria sozinho. A galinha era a sua companhia. Passando dias e dias sem ver ninguém, ele falava com a galinha. Aquele animal continuava nele afectos, evitando que embrutecesse pela solidão.

Apaguei a televisão. Vesti o casaco, peguei na mala e sai para a rua. Falei à minha vizinha. Entrei numa pastelaria e pedi um café. No outro lado do mundo, naquele momento, alguém estava numa situação bem diferente da minha.


da Leonor

Música: Cold day in hell (Larry Carlton)



















46 Comments:

Blogger th said...

Esse homem tinha a sabedoria de um psicólogo. Eu não me sinto sozinha, mas falo muito com a minha gata, sempre é melhor do que falar sozinha. No fundo o que fazemos nós aqui? não é um pouco como falar com a galinha? beijo, th

11:30 AM  
Blogger Menina_marota said...

A sobrevivência da mente humana, nunca se faz sozinha...

Gostei da tua história e, não sei bem porquê, associei-a a mil coisas...

Há tempos alguém, perguntava-me muito admirada: " Mas logo tu, que tiveste uma actividade profissional tão intensa, como te podes dar em casa tantos dias sozinha? Não morres de solidão?"

Eu simplesmente, respondi-lhe:

- tenho um cão, um gato, um papagaio, um canário, quatro peixes e, as minhas plantas... nunca estou sózinha...ah, e tenho o meu blog... onde esqueço o tempo...

Um abraço terno e um bom domingo ;)

11:51 AM  
Blogger AS said...

Leonor, sempre fascinantes e oportunas as tuas palavras.

Deixo-te um excerto de um poema de Torga ( Claro-escuro)em que o escuro pode ser a solidão e o claro os afectos...

Dia de vida
Noite de morte
O verso
E o reverso
Da medalha
E não há desespero que nos valha,
Nem crença
Nem descrença
Nem filosofia
Esta realidade, e nada mais
Sol e sombra - o binómio dos mortais

Mas eu acrescento que o sol vem primeiro, e a sombra depois...

Um beijo

3:22 PM  
Blogger sininho said...

fascinante, no mínimo:)

*

3:30 PM  
Anonymous Ze said...

Agora, exactamente neste momento, há outros homens que nem sequer a galinha têm por companhia. A solidão desses seres é verdadeira. Afinal porque nos queixamos nós ( me queixo eu ) por coisas de nada ?
Um abraço.

6:32 PM  
Blogger Bárbara Vale-Frias said...

Queixamo-nos demais... mesmo que às vezes nos queixemos só para dentro de nós próprios.

Falta-nos dar valor a tudo aquilo que temos e que tomamos por certo e insignificante.

Bjs

9:18 PM  
Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Leonor
Já ouvi histórias antigas de galinhas atropeladas, que em tempos idos era a única forma de serem comidas pelos donos, caso contrário serviam para pôr ovos ou para vender. Comer uma galinha já foi só em dia de festa ou quando uma mulher estava grávida. Agora, elas estão democratizadas, como tal perderam importância e são comidas por todos :)
A solidão que relatas existe em todo o lado, mas muitos de nós nem galinheiros temos.
Um beijo
Daniel

10:24 PM  
Blogger José Gomes said...

Há muitos, muitos anos...
Em casa de meus pais ofereceram-nos uma galinha.
Branca como a neve e linda como o sol.
Vinha do Liceu e todos os dias falava-mos. Ela cacarejava e eu dizia-lhe uma laracha.
Um sábado desapareceu.
No almoço de domingo cheirava a frango cozinhado.
A minha mãe pôs na mesa um prato de caja com um ovo bem amarelo no crntro do prato.
Desapareci por uns dias.
Eu apareci.
Ainda hoje espero que a galinha regresse a casa.
Paz à sua alma!
Um abraço.

10:32 PM  
Blogger Dumb said...

Uma das galinhas que trago na memória é a do filme "A cidade de Deus".

Pensar que toda aquela história começa com uma galinha...

10:35 PM  
Blogger nos.intervalos.da.memoria said...

não há nada mais triste que a solidão humana. recentemente numa visita ao hospital, deparei-me com situações demasiado tristes para serem verdade, pessoas completamente ao abandono, sozinhas, de olhar vazio, perdidas nas suas memórias...
e muitas são as vezes que me queixo de pequenas coisas da minha vida, quando na realidade, não tenho nada de que me queixar...


(gostei do teu blog.
gosto da maneira como escreves.)

bjs

11:56 PM  
Blogger batista filho said...

Cê é danadinha: como quem não quer nada solta uma idéia aqui, outra acolá - como quem semeia sem maior esforço. E não é que germinam mesmo?... e crescem e frutificam - como comentários -, pois sabe como poucas instigar os outros, nós leitores!
Brincando com as idéias: de uma galinha, "animal pouco inteligente", que nunca conseguiu ver uma morrer atropelada... ao homem que adota uma penosa mais que como um animal de estimação: e sim como companhia e confidente, em decorrência da solidão.
Clap, clap, clap!
:) Um beijo, amiga.

1:57 AM  
Blogger Al said...

Pronto! mais uma história fantástica desta menina!
Mas a solidão é fruto da nossa sociedade egoísta e egocêntrica. Se a sociedade fosse nais solidária, nem uns sofriam por não ter ninguém, nem ninguém sofria por não ajudar alguém.
Quantos solitários há que se disponham nas horas vagas da sua solidão a irem visitar idosos que vivem sós, por exemplo? Um curava o outro.
É tudo tão fácil... mas a novela das dez, depois o resumo do jogo às onze... nós somos tão peque... humanuzinhos.
Aqui não cabe o desabafo, mas gostei muito da história da galinha. E cá para mim, o ovo nasceu primeiro, claro!
Saludos!!

3:50 AM  
Anonymous Friedrich said...

Ama-se ou odeia-se. Qual será a diferença quando se está completamente sozinho?
Só nos resta mesmo é a leitura, a escrita das nossas memórias e a música...

Só nos resta mesmo é o sonho!

6:15 AM  
Blogger Isabel-F. said...

5 Estrelas Leonor......

Adorei...

eu tive galinhas no meu quintal em Moçambique....cresci à volta delas... e não são estúpidas não...havia uma qque tentava atacar-me sempre que eu aparecia vestida com alguma coisa vermelha...

Beijinho

12:28 PM  
Blogger augustoM said...

Tavez haja outro movito também para o homem não matar a galinha, enquanto esta estivesse viva havia sempre esperança de não morrer à fome.
Um beijo. Augusto

4:06 PM  
Blogger NightWolf said...

Cá estou eu de volta, gostei da história, é bom voltar a blogosfera e ficar logo enriquecido com uma bela mensagem de vida, beijocas*

4:39 PM  
Blogger SaltaPocinhas said...

A história do José gomes fez-me lembrar uma identica que se passou comigo! e o engraçado é que a "minha" galinha também era branca (uma cor rara em galinhas de capoeira há muiiiiitos anos!) a minha mãe ficou com tantos remorsos quando me viu inconsolável que depois me deixou adoptar outra galinha que me seguia como se fosse um cachorro e que morreu de velha...

5:25 PM  
Blogger M.P. said...

Não há dúvida que solidão é solidão! E... arranjar UM AMIGO é acto precioso! E AMIGO é mesmo quem é AMIGO!!! **

8:18 PM  
Blogger m@nuel said...

Venho aqui só quando tenho tempo, não gosto de fast-food.
Venho aqui quando tenho tempo para me sentar a ler com vagares de gurmet e mais uma vez saio satisfeito. Devia pagar-se propinas no teu blog… ou talvez não, porque é um verdadeiro serviço público.

9:08 PM  
Blogger JLBM said...

Olá, bem passei por aqui dizer, que ainda estou vivo... :)

9:16 PM  
Blogger almaqueabsorveaslagrimas said...

Mt sabia este homem então.

beijo leonor *

9:39 PM  
Blogger António said...

Minha querida!
Estás a fazer uns posts óptimos.
Originais e cativantes.
Cada vez se vem aqui espreitar com mais vontade que haja material novo.
Jinhos, muitos

10:55 PM  
Blogger Mocho Falante said...

Na verdade somos um animal social e a solidão torna-se mais insuportável que a própria fome e por isso matar aquele com quem socializamos por uma refeição não vale o sacrificio,porque pior do que beijar, afagar e falar com uma galinha é não fazer isso a ninguém.

Fabuloso relato leonor

12:21 AM  
Blogger Amigo de Alex said...

Como pode uma galinha bem viva, irrequieta e saltitante, ser tão fresca e deliciosa? E como resultou magnifica esta cabidela?Talvez que o segredo esteja na cozinheira que manuseando pensamentos e talento, doseados com maestria, colocou na mesa uma iguaria que degustei deliciado. Decerto vou repetir.
Um beijo.

1:35 AM  
Blogger Lina said...

Eu fico deliciada com os teus textos (ando-me a repetir muito já) e ao som desta música, quedei-me aqui,acho que até ouvi a galinha cacarejar...eheheh
Beijokas

3:10 AM  
Anonymous Anonymous said...

adoro animais e tenho muitos tambem, todos lindos, cegos, mancos
enfim o que apareceu por lá-hihihi
http://amcosta.blogs.sapo.pt

9:53 AM  
Anonymous Henrique A.C.Santos said...

Olá,
Quase sem tempo para te cumprimentar, sento-me ao pc, e depois de sorver, em largos golos todo o atrazado doce perdido... engasgo-me, mas estou aqui ofegante a responder-te, oh menina Camoniana, que vais à fonte muito segura... Não troco o significado pelo significante, que um depende do outro, mas às vezes "vareia", "n'é? Puxo duns parêntesis, abro e fecho e sigo em frente, nos dias e nas noites perdidas, entre o crer e o saber, mesmo que Deus tivesse letra pequena... O teu olhar desperta, e já não estás novamente perdida, e contas as histórias da tua rua... aminha é maior que a tua, não te esqueças... e, tem o Almada! Mas, na indiferença da situação, com liberdade e responsabilidade, sem devaneios, direi:
Oh blog mágico,
que falta me fizeste,
quase que foi trágico,
mas, enfim apareceste!
viva a vida,viva,
com todo o significado,
no significante apropriado,
viva, pois claro, viva!

saudosamente, Ricky

3:13 PM  
Blogger Vagabundo said...

Depois de algumas Fugas ( não a das galinhas) cheguei até ao teu "sitio" e deliciei-me com a tua escrita.
Será mais um "sitio" pra Vagabundear.

3:42 PM  
Blogger Nilson Barcelli said...

Podia ficar aqui a tarde inteira a falar contigo sobre galinhas.
Vou resumir...
Um grupo de galinhas tem sempre uma hierarquia irrepreensível.
Provavelmente acontece à galinha o mesmo que a borboleta. Toda a gente pensava (mal) que o seu voo era errático. Mas não...
Qualquer pessoa passa a falar com os animais se conviver muito de perto com eles.
Conheço uma pessoa que tem conversas com as galinhas inimagináveis. E tenho a impressão que elas percebem algumas coisas.
A expressão "estúpidas que nem galinhas" não vai durar muito mais tempo.
Vivam as galinhas.
E, já agora, o frango de cabidela (delicioso...).
Beijinhos

4:12 PM  
Blogger Leonoretta said...

para o RICKY

(que não tem blog)

adorei. notei muito a tua susencia mas agora valeu a pena ler semelhante redacção.
leste. vi que leste. na tua narrativa estão lá todos os posts que escrevi nas tuas férias.

obrigado Ricky pela tua dedicação. está giríssimo.

abraço da leonoreta

5:09 PM  
Blogger Bárbara Vale-Frias said...

Enquanto lá andei, não senti isso; mas quando passei para a Emídio percebi que realmente era muito beta! Looool

Aliás, ainda hoje tenho uma tia-avó que me diz que sou a sobrinha mais quequinhas que ela tem! Looool (Será que ela tem noção do que está a dizer?!?!?!?)

Jinhos

7:53 PM  
Blogger Buddha Breezer said...

O tempo é o melhor autor: sempre encontra um final perfeito, e neste caso o tempo encarregou-se de o livrar da solidão, mesmo de uma forma muito original

11:57 PM  
Blogger amita said...

São sempre fabulosos os teus artigos. A prosa-poética que enviaste para a noite de poesia em Vermoim é uma maravilha. Aqui começas a semear palavras entre o significado e o significante e vais desenrolando as letras até chegares a uma história de vida. Adoro conviver, estar activa e ler os teus textos preciosos mas, muitas vezes, também preciso de estar sozinha comigo, no espaço onde vivo, com o chilreio dos passarinhos e os cães da minha filha e isolo-me, desapareço. Esses momentos que poderia chamar de solidão, nunca o são, há um flutuar em mim. Contudo, compreendo perfeitamente tanta solidão que existe e que com sinceridade lamento que não sejam tomadas medidas para minorá-la.
Bjokas amiga

12:55 AM  
Blogger perola&granito said...

Queres visitar o nosso blog?

1:04 AM  
Anonymous Friedrich said...

Começa neste momento, a faltar-me tempo para dar vazão a todas a minhas tarefas que desafio constantemente... O que algumas ficarão sempre para amanhã, por conseguinte apenas me perdoem por não comentar tanto como gostaria. Apesar deste post me aliciar pelo conteúdo assim como pela escritora...

Beijos, Leonor, volto mais logo, logo!

Voltarei com mais tempo para te ler a preceito...

11:35 PM  
Blogger Roberto Iza Valdes said...

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5:24 PM  
Anonymous Anonymous said...

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4:16 PM  
Blogger Roberto Iza Valdes said...

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6:08 AM  
Anonymous yohanna said...

Percebo que há muita gente assim, vagando no mundo virtual internet, sem rumo, uma idéia aqui, uma ilusão de contato ali...
Sigo também assim, fingindo uma não-solidão.
Tenho um blog, alguns projetos de pesquisa, alguns livros escritos, e um isolamento infinito...
Sozinhos somos todos nós. UNS, mais que os OUTROS.
meu blog

8:31 PM  
Blogger Iza Roberto said...

This comment has been removed by the author.

5:46 PM  
Anonymous Anonymous said...

Aquele que dia a dia, cercado e rodeado por pessoas, sente-se e permanece sozinho está em melhor ou pior situação que esse nosso amigo e sua galinha?
abraços

2:59 AM  
Blogger vallops said...

Olah! Falo do Brasil.. Linda a múisica e a fala po´´etica q está no seu blog.. poderia me enviar como arquivo para meu e-mail? vallops@ig.com.br
Obrigada,
Val

4:54 PM  
Blogger carlos said...

Parabens pelo seu blog, amei!!! e esta estoria foi fenomenal!!! me emocionei bastante.

6:28 PM  
Anonymous Anonymous said...

Adorei a sua história, pois ela nos faz repensar a solidariedade que a maioria das peessoas atualmente nao tem. Bem como, ás vezes reclamamos de nossa vida, sendo que existem pessoas sofrendo muito mais e não reclaman tanto...

8:31 PM  
Anonymous su said...

Quantas pessoas estão nos asilos e hospitais como galinhas soltas, sem donas no mundo...esperando por almas famintas de amor....bjuuuuuuuuuussss

4:49 PM  
Anonymous Anonymous said...

Vc é maravilhosa...

4:36 PM  

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