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Mínimo sou, mas quando ao Nada empresto a minha elementar realidade, o Nada é só o Resto. Reinaldo Ferreira

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Dizem que sou como o sol mas com nuvens como na Cornualha

Monday, July 18, 2005

Carta à Directora



No ano passado quando verifiquei a morada da escola onde fiquei colocada, as minhas orelhas começaram dolorosamente a ferver como sempre acontece quando sou tomada de um terror súbito e violento.

Todavia, não tinha motivo para tal pois fora eu a grande culpada de ter ido lá parar. Curiosamente foi logo a primeira escola da minha escolha. Mas juro! Juro que quando coloquei o código da escola no boletim eu não sabia o que estava a fazer. Não sei o que se passou. Não me lembro.

A zona da escola é famosa pela sua baixa condição social e económica. Mas eu também já tinha alguma experiência de outras escolas situadas em zonas menos convidativas e pedi ao meu anjo para me convencer do meu destino.

Cheguei à escola, muito bem disposta, por acaso. O sítio… deserto e bolorento. E ao longo do ano sempre o achei deserto e bolorento. Não obstante, a escola era bonita.

Tu, directora, simpática. Muito. De sorriso franco, cabelos caídos nos ombros, já branqueados, com uma franja que te conserva o ar revolucionário e idealista dos estudantes dos anos 70, logo começaste a falar dos miudos da minha turma. Um por um, mostrando que os conhecias como as linhas da palma da tua mão. E conhecias. Recebeste-me de braços abertos que assim se mantiveram durante o ano inteiro em que trabalhámos juntas.

Tu, Luísa, calma, benevolente, experiente das necessidades afectivas das crianças pela sua atitude desafiadora, disfarce de medos infindáveis de maus tratos psicológicos e físicos pela parte daqueles que deveriam ser os seus mais queridos. Progenitores, alguns ausentes, outros presentes mas sempre ausentes.

Tu, Luísa, tão diferente de mim, explosão de sentimentos estapafúrdia que transforma tudo o que vê e ouve ora em brisa fresca de palavras doces ora em rajadas de gritaria ventosa se as coisas não correm consoante o desejo do meu Id, qual criança na sala de aula a puxar a camisola da professora para se fazer ouvida.

O teu gabinete tão perto da minha sala deixava-te ouvir, nas tais colunas de vento ciclónico, tantas vezes acompanhadas de trovoada, os meus apelos ao sentido de dever dos miudos, para cumprirem as regras de sala de aula. Mas, tu nunca te rebelaste contra os meus aguaceiros.

Ensinaste-me, Luísa, que se pode acreditar nas pessoas e, que se acreditarmos nelas elas escolherão sempre o melhor caminho para si e para os outros.

Ensinaste-me que não devo ter medo de morrer pela boca como o peixe, como geralmente sempre morro, por dizer sempre o que sinto, se o que sentir for a pensar no bem do outro.

Ensinaste-me também que não é a zona, que não é a população dessa zona que faz uma escola impossível mas que é o empenho dos professores que tornam a escola possível.

Agora as aulas acabaram. As reuniões brevemente chegarão ao fim e o último dia da minha estadia na escola também virá. E eu já choro uma escola que me fez tremer só de ouvir o nome e uma directora que me mostrou que não há escolas impossíveis quando os professores pensam nelas como as melhores da freguesia.

Despeço-me de ti, repetindo o brinde feito pela Sofia, no nosso almoço de fim de ano “para o ano todos juntos outra vez”.

da Leonor

29 Comments:

Blogger Mocho Falante said...

Grande sorte tiveram as duas, Leonor porque pelos vistos encontrou um belo abrigo de protecção, Luísa porque encontrou uma professora apaixonada pelo que faz

7:50 PM  
Anonymous JLBM said...

Uma história com um final feliz, pena para outros tantos não ser assim!

9:03 PM  
Blogger António said...

Tens andado muito produtiva em termos de posts.
É bom sinal. Sintoma de vivacidade e vontade de fazer.
Parabéns!
Continua a criar bons posts como este e os anteriores.
Jinhos

10:10 PM  
Blogger m@nuel said...

Fico triste quando vejo os bons professores deste país serem tratados sem respeito.
Tive vários, bons e maus, mas todos me construiram, acredito, o melhor que puderam.
O aluno que fui, não perdoa aos que hoje querem reduzir o professor à simples aritmética da agenda política.
Não li todo o blog. Voltarei frequentemente para compensar o mau aluno que fui.

10:58 PM  
Anonymous Friedrich said...

Nem tudo o que parece por vezes é...
Ensinar é hoje em dia uma tarefa difícil, tornando-se muito mais quando o ambiente escolar é de cortar à faca. Agora quando o ambiente escolar é cinco***** a distância passa a ser de somenos importância, deixando sempre saudades. Que a sorte te acompanhe sempre. Gostei de te conhecer, apesar de mal trocarmos palavra, mas fica para uma próxima...

Já se pode ver algumas fotos no meu blog, onde estás tu e o teu marido.

Beijos e abraços aos dois

3:58 AM  
Blogger AS said...

Leonor,
Obrigado por nos deixares aqui mais este testemunho!
Admiro-te muito.

Um beijo

9:05 AM  
Anonymous Henrique A.C.Santos said...

"Lianor", minina, que dizer? O texto é admirável... viajo todos os dias em barcos que tem nomes de escritores... Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Antero... e, leio logo pela manhã um texto bem estrururado, com princípio meio e fim! Vê lá a minha sorte! Alguns períodos são magníficos, e vêm desmentir os que afirmam, que se escreve e fala mau português... pois, escolham os ambientes e, sobretudo os protagonistas, e sejam felizes. Depois, o conteúdo e, confesso, já o conhecendo porque contigo falei antes, não previa nada disto... superaste a minha expectativa, que já era alta, em grande! Com professoras assim, já não volto a dizer gratuitamente, que os meus é que eram bons... Bela (BELA) lição de vida ali está descrita. Obrigada.
Bjinho Ricky

9:07 AM  
Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Leonor
Bom quando sentimos o chamamento forte e o caminho está lá para ser trilhado. Ele só é caminho, não porque é marca limpa na paisagem, mas porque é escolhido pelo caminhante.
Um beijo
Daniel

9:52 AM  
Blogger Isabel-F. said...

Oi Leonor....

Já te vejo com lagriminha ao canto do olho...
como sempre acontece contigo, o teu ano escolar foi gratificante, pois tu fazes que isso aconteça...
Beijos amigos

10:48 AM  
Blogger sininho said...

Uma história muitíssimo bem contada.
Gostei do teu cantinho!*

E é muito fácil voar da janela do 4º andar.Fechar os olhos e soprar os pózinhos de perlimpimpim.
Obrigada pelas palavras bonitas.
:)

Importaste que pergunte quem te falou de mim?*

11:35 AM  
Blogger José Gomes said...

Leonor,
Vou deixar assim o nome...
Foi uma surpresa agradável ver uma figura frágil escondida por trás de uns óculos escuros... mas comunicativa e sorridente.
Este texto está escrita bem ao estilo da "Leonor", que nos comove e nos prende com as suas narrativas.
Agora que te conheci sinto-me inibido de comentar...
A tua cultura e o amor que pões naquilo que fazes fazem de ti uma grande MULHER.
Obrigado por te ter conhecido.

12:42 PM  
Blogger Caracolinha said...

Pois é Leonor ... que bem sabe ouvir relatos de pessoas que acreditam e que transformam os impossíveis em muros para derrubar.

Beijinho ~:o)

5:06 PM  
Blogger Leonoretta said...

mocho
olha que bela definição a tua...

jota
será feliz se ficar lá para o ano outra vez.

antonio
muito obrigado.

manuel
achei o teu comentario formidavel.
obrigado pela visita.

friedrich
já lá fui ver as fotos. estão giras. eu é que não.

frog
obrigado. corei.

ricky
nesta altura em que pareço andar à caça de temas deste-me ideias para um: falar mau e bom portugues.

daniel
foi uma reflexão muito bonita.bonito para ter na sala de aula.

isabel
e tu ja bem conheces esta minha emoção à flor da pele.

sininho
pós de perlimpimpim de momentonão tenho. mas talvez se usar algumas palavras mágicas eu consiga o impulso até ás estrelas, que dizes?
dir-te-ei quem foi, se quem me disse me deixar dizer.

josé
nao sei onde me esconder com tantos mimos.


abraço da leonor

5:22 PM  
Blogger sininho said...

ah querida claro que resulta também.
Desde que acredites que consegues:)

aguardo a resposta então.
E entretanto já tenho o teu cantinho á mão de semear para visitar:)

beijinho leonor*
[gosto muito do teu nome]

5:53 PM  
Blogger Leonoretta said...

caracolinha
esta é das tais coisas... que eu nao sei controlar... apareceste enquanto eu respondia e nao te vi.
e por isso deixei-te de fora.sorry.

sininho
e eu gosto muito do significado do teu nick.


abraço da leonor

6:54 PM  
Blogger B. Fernandes said...

Leonor,
e olha que outro dia caí aqui sem querer e já não consigo deixar de visitar-te.
são as belezas dos seus textos.
Beijos,

8:40 PM  
Blogger Um Olhar Sobre... said...

Também corei com as palavras que me deixaste lá no meu canto. As afinidades por vezes chegam sem precisarem de grandes palavras :).
Hist´rias de vida embrulhadas em laços de ternura, que a sorte te sorria da mesma forma no próximo ano lectivo.
Beijo grande

12:55 AM  
Blogger procuro-te said...

Que bela carta, Leonor! Muito feliz deve de estar a Luísa com tais palavras... Obrigada pelo teu comentário. Na realidade, sou uma mulher simples de gostos simples. Além disso, sou uma principiante com muito para aprender. Beijinos da outra Leonor. Também podes encontrar-me aqui...

9:58 AM  
Blogger th said...

Saber da existencia de pessoas como vcs é uma luz de esperança, é uma chance para aqueles miúdos que pouca teem no seu futuro, dadas as condições sociais em que estão inseridos. Fico feliz, um beijo, th

11:24 AM  
Blogger Bárbara Vale-Frias said...

Olá, Leonor! (voltei, pois foi!)

Gostei muito desta tua carta aberta à tua directora. Gesto bonito.

Um beijinho!

P.S. Às vezes, a nossa felicidade reside nos nossos enganos ;)

3:14 PM  
Blogger SaltaPocinhas said...

Espero, do fundo do caração. que fiques colocada na escoal que escolheste. Eu pela 1ª vez na vida não tive de concorrer e já conheço os pestinhas que me esperam.
E agora para coisas tristes: já foste à página do ministério ler as novas directrizes? está lindo, além de sermos considerados burros e malandros...

4:33 PM  
Blogger requiescatinpacem said...

Bolas!! está ai uma profissão que eu não queria.. parabéns!!

5:34 PM  
Blogger lazuli said...

A beleza e sensibilidade dos teus textos..comove. É bom ler-te, Leonor..Beijos**

8:17 PM  
Blogger franginha said...

Olá Leonor, fiquei muito comovida quando finalmente consegui encontrar o teu blog. è a 1ª vez que o faço. Que surpresa agradável...
Por trás da tua fragilidade está uma grande sensibilidade e uma grande vontade de conheceres o mundo como ele é e não como gostaríamos que ele fosse. Mas com a nossa força conseguiremos, e temos conseguido modificá-lo para melhor...nem que seja só por um sorriso em vez de uma lágrima...Obrigada pela tua carta. Não tenho palavras... a tua sempre amiga Franginhas

6:15 PM  
Blogger franginha said...

Olá Leonor, fiquei muito comovida quando finalmente consegui encontrar o teu blog. è a 1ª vez que o faço. Que surpresa agradável...
Por trás da tua fragilidade está uma grande sensibilidade e uma grande vontade de conheceres o mundo como ele é e não como gostaríamos que ele fosse. Mas com a nossa força conseguiremos, e temos conseguido modificá-lo para melhor...nem que seja só por um sorriso em vez de uma lágrima...Obrigada pela tua carta. Não tenho palavras... a tua sempre amiga Franginhas

6:18 PM  
Blogger franginha said...

leonor, reconheceste-me? Franginha

6:19 PM  
Blogger silencebox said...

Adoro ler posts que tenham por tema "Escola" mas que sejam escritos com um verdadeiro coração de professora, escritos com vedadeiro Amor pelo profissão e pelo bem estar de todos!
Infelizmente, há poucas directoras como a que tiveste. Tiveste muita sorte! As lições que ela te deu são correctas e úteis, ela é uma pessoa com muitos anos de experiencia, por quem já viu coisas piores e enfrentou muitos problemas na Escola. Os professores, os ditos verdadeiros,só aprendem ao longo de muitos anos de experiencia mas até lá não é fácil, custa muito...

Muitos beijinhos! =)*

4:45 PM  
Anonymous Anonymous said...

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6:43 AM  
Anonymous Anonymous said...

Best regards from NY! » »

8:20 AM  

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