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Mínimo sou, mas quando ao Nada empresto a minha elementar realidade, o Nada é só o Resto. Reinaldo Ferreira

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Dizem que sou como o sol mas com nuvens como na Cornualha

Saturday, December 16, 2006

"Ele nunca errou. Ele nunca voou"

Leonor lê as primeiras palavras do romance que Ana começou a escrever.

“O maior desgosto da vida de Lucinha foi ouvir aquelas palavras do seu companheiro de vinte e poucos anos de relação: Não sou teu. Não te pertenço. Ninguém é de ninguém.
A partir dai, Lucinha sentiu que perdera o rumo e que a sua vida dava uma volta nunca prevista”.

- Hummm… todo o texto tem um texto por trás… Steinbeck? – perguntou Leonor

- Que presunção a minha imitar Steinbeck. E daí não sei.

- Claro. O autor raramente reconhece as suas influências. em As Vinhas da Ira há uma frase formidável que será capaz de resumir todo o romance.

- Qual?

- “Ele nunca errou. Ele nunca voou”

- Pois. Se ele tivesse voado teria errado.

- Axiomático. É o que geralmente acontece a quem tem a audácia de voar. O erro é mais que certo.
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Devido aos mapas mentais, esquemas conceptuais – schematta, como dizem os italianos - que formamos na nossa cabeça à medida que vamos conhecendo a realidade, qualquer palavra nos transporta para outra ou outras realidades.

O “não sou teu”, lembra-me também que a gramática russa não tem pronomes pessoais, isto é, se eles têm um lápis, não dizem, “este lápis é meu”. Dizem: “este lápis está perto de mim”.

Ou seja, o lápis pode ser de quem for que isso não interessa porque se estiver perto de mim, eu uso-o independentemente do facto de ele não me pertencer.

Será que foi por esta compartilha, indiciada por uma cultura gramatical, que nasceu o comunismo naquele sítio?

Estou só a especular…

Da Leonor

19 Comments:

Blogger António said...

Querida Leonor!
Surpreendeste-me com este texto em que, em vez da habitual história condimentada com o teu habitual humor, fazes uma reflexão (embora evasiva) sobre a posse de alguém ou alguma coisa por alguém.
E vais muito mais longe, sem dizeres tudo...antes dizendo muito pouco.
O resto é para ler nas entrelinhas.
Uma boa introspecção!

Beijinhos

2:40 PM  
Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Leonor
Havia a necessidade de que ele fosse dela, de onde se depreende que ela acreditava que era dele... pois, é bom amar e dar-mo-nos aos outros, mas quando os sentimentos esfriam...
Um beijo
Daniel

5:51 PM  
Anonymous Ana Joana said...

Olá Leonoretta,

Que todo o texto tem um texto por trás e que este é uma vida, isso sem duvida.
Que a gramática russa se aplicará aos lápis na questão do uso pela proximidade, tudo bem. Não me parece, que nos costumes se aplique às relações pessoais: são monogamicos e tanto quanto é dado ver, vivem dentro desse conceito - de uma maneira geral e salvaguardando as escapadelas que sempre existem.

Curiosa (será?) é a relação que se estabelece entre os três factos rssss: a origem dos textos, o conteudo dos textos e a necessidade de encontrar algures, em qq ponto do universo - até pode ser na russia - algo que transforme em coerencia uma citação que transborda dor. Ou, a nossa necessidade inadiavel de encontrar justificações para tudo, como se elas existissem!

Um bom fim de semana e
Beijinhos
Ana Joana

7:54 PM  
Blogger Leonoretta said...

PARA ANA JOANA

ah! ana joana!
já te disse que sou uma dreamer? e uma believer?já tinhas reparado que o era?

sou..........
serei sempre.

por isso acredito que há uma justificação para tudo. se não a encontro... não é porque ela nao existe... é porque eu nao consigo encontrá-la.

beijinhos da leonoreta

9:16 PM  
Blogger António said...

Querida Leonor!
Só te quero agradecer a visita e comentário.
Vou ter de fazer uma alteração ao texto.
Já!
Esqueci-me das rabanadas!!!!

Beijinhos

10:47 PM  
Blogger lena said...

Leonor um olá meu!

ler-te é sempre um grande prazer e acabo por sair sempre enriquecida,

conceitos de cada um,

ninguém é de ninguém, a posse faz mal muitas vezes, cada um sabe de si, é a vantagem da liberdade

abraço-te carinhosamente, pois faz tempo que não marcava por aqui a minha passagem, mas andei e ando ainda um pouco ausente deste mundo da blosfera, mas sempre consigo um tempinho para te ler

um beijo, menina linda e virei sempre

lena

11:25 PM  
Blogger Paula Raposo said...

Quem não voa não erra. Óbvio. Bom Natal e bom Ano Novo para ti. Bjs.

12:48 AM  
Blogger Arte por um Canudo 2 (No Sapo) said...

Parece-me que esses argumentos são muito válidos para a teoria do comunismo.Ninguém é de ninguém e tudo pertence a todos.Parabéns Leonoreta pelo texto, mesmo sem o texto por trás.Bom Domingo.

5:04 PM  
Blogger Professorinha said...

Que texto tão interessante! Adorei mesmo o teu texto :)

Muitos beijos :)

(talento... não diria, gosto de fotografar, às vezes lá sai algo mais ou menos...)

10:45 PM  
Blogger Mocho Falante said...

Sabe bem chegar aqui para ler estes belos posts carregados de originalidade...

beijocas

2:51 AM  
Blogger viajante said...

Este texto não é teu... é partilhado. E ainda bem que asim é.
Uma boa semana.

12:10 PM  
Blogger augustoM said...

"Este lápis é meu" à maneira russa "este lápis está ao pé de mim". Descodificando o russo. Tudo o que está ao alcance da minha mão, posso surripar, logo tudo é meu.
Leonor, Um Feliz Natal e que o próximo Ano Novo, seja um ano de realização os teus sonhos.
Um beijo. Augusto

1:48 PM  
Blogger APC said...

Mas... Muito bem! :-)))
Muito inspirada, sim senhora!
Aqui estamos, num registo diferente, com um raciocínio interessante, uma originalidade que se não fica por ela, a nú e só, mas que sabe começar e pender no ar... Para que a apanhemos.
Apetecía-me ser mazinha e dizer que há por aí muito russo, para quem o que está perto deles já é deles, e vão logo tentando deitar a mão (lololol), mas longe de mim estragar o ambience natalício! ;-)
Vim deixar-te um abraço, e o votos de uma Vida Feliz, Natal e Passagem de Ano incluídos.

7:48 PM  
Blogger blugaridades said...

Li e parei para reflectir. Ninguém é de ninguém. Ninguém tem nada. Seria bom que estivéssemos perto de todos e de tudo de que gostamos. Seríamos bem mais felizes se assim pudéssemos viver.
Um Santo e Feliz Natal.
Beijos

7:03 PM  
Blogger SaltaPocinhas said...

qual marx qual quê!
A essencia do comunismo tem de ser mesmo essa! Se eles não podem dizer "meu" não pode haver propriedade privada, não é??

1:47 AM  
Anonymous Filipe Freitas said...

Um Natal cheio de Luz,
Paz e Amor Universal,
e que possamos sentir
as bênçãos e a Luz de Cristo
em todos os momentos de nossa vida,
e assim construirmos um mundo melhor.

Leonor: os meus votos sinceros de um Feliz Natal com muita saúde e alegria.
Beijinhos.

2:29 AM  
Anonymous pedro alex said...

:)
Não me lembro como vim aqui parar; depois de só ler este texto torna-se impossivel resistir a um comentário:)
Uff sem comentários, o melhor é ler tudo e depois comentar, é...

1:50 PM  
Blogger individuo said...

Essa poderá ser muito provavelmente a explicação mais simples do comunismo. É engraçado dar conta que às vezes aquelas ideias e palavras enxertados em corno de cabra que a muitos de nós faz espécie, têm origem em situações tão curiosas e banais.
Já tinha saudades de te visitar e pesa-me a ausência porque ler os teus textos é um prazer.

Um abraço 8)

3:34 PM  
Blogger silencebox said...

Mais um texto formidável! é obvio que quem não voa, não erra. Os erros fazem parte da Vida, é com eles que aprendemos a viver melhor. Devemos voar sem medo e aceitar os erros para a posterior maturidade.

10:52 PM  

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