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Mínimo sou, mas quando ao Nada empresto a minha elementar realidade, o Nada é só o Resto. Reinaldo Ferreira

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Dizem que sou como o sol mas com nuvens como na Cornualha

Sunday, January 01, 2006

Não derrames o tinteiro


O primeiro dia do ano reporta-me sempre a uma conversa amena entre duas personagens, a Mafalda e a Liberdade, do cartonista argentino Quino.

A propósito do ano que começa a Liberdade diz que o dia 1 de Janeiro é como a primeira folha de uma agenda novinha a estrear ao que a Mafalda responde “cuidado, não derrames o tinteiro”.

O conjunto de práticas consagradas pelas normas determinadas pelas ocasiões a que chamamos rituais, dizem-me muito pouco, precisamente pela obrigatoriedade do individuo à sociedade. Cumpro-os pelo sentido de ética que a comunidade me incutiu desde que se iniciou o meu processo de socialização. Contudo, a minha moral, essa minha vontade que determina a minha conduta, escondida a maior parte das vezes por se revelar contra princípios universais, leva-me a formar os meus próprios rituais.

E assim… depois de beber o champanhe e mastigar as passas, deito-me e durmo, resignando-me pacificamente a um dever cumprido. Depois, no dia seguinte, levanto-me cedo e vou ver o mar. Por vezes está vento. Por vezes o céu está nublado. Outras vezes o sol aquece o passeio no paredão e nem parece Inverno. Observo as gaivotas juntas na areia, quietas, todas viradas só para um lado, indiferentes à passagem dos dias e ao ritual dos festejos. Observo as ondas do mar no seu vai vem constante, ritmado, rebentando em bolhas brancas à beira-mar.
Leonor, se tu fores à praia... se tu fores ver o mar... cuidado, Leonor… não derrames o tinteiro.
da Leonor


32 Comments:

Blogger José Gomes said...

Lindo.
Sê bem vinda ao nosso cantinho.
As tuas palavras soam-me como um poema: mar, praia, céu, gaivotas, areia...
Leonor, se tu fores ao mar, cuidado, não dês de caras com resteas de 2005.
O sonho acabou...
Aparece-nos um 2006 ainda limpo de esperanças, à espera da tua caneta para nos contar coisas lindas como só tu o fazes...
E não tenhas medo de derramar o tinteiro! Cá te esperamos para ajudar a limpar o excfesso de tinta.
Um bom 2006.

5:57 PM  
Blogger individuo said...

Que coisa boa gostares da Mafalda - A Pessimista mais simpática do mundo. Lembro-me bem dessa tira.
Sabes que antes do dia 31, estava a resignado a passar o ano em casa porque não havia feito planos com ninguém. À última da hora, ligam-me a perguntar se quero ir para um local determinado. E lá fui. Nem os outros nos deixam fugir a essas regras impostas pela sociedade.

8:52 PM  
Anonymous Cris said...

Que delícia, Leonor! Não te imagino a derramar o tinteiro. E, ainda que o derrames, vais sempre conseguir torná-lo numa imagem boa de se ver!
'Bora arregaçar as mangas e tornar o 2006 na nossa melhor casta!
Beijicos

11:01 PM  
Blogger Eva Shanti said...

Olá!

Por acaso vi o mar no 1º dia do ano, mas não como eu queria. É uma coisa que gosto de fazer sozinha, de olhar e pensar na vida, mas estava sempre alguém ao meu lado e não podia «dispensá-los». Enfim, aí está uma coisa para fazer em 2006, com calma e como eu gosto.

E não vamos derramar o tinteiro, vamos escrever muitas páginas, muitos posts, o que quiser...

Bjs

12:47 PM  
Blogger Isabel-F. said...

Querida Leonor,

Neste início de ano vim desejar-te uma boa semana e o melhor para 2006.

Bjs.

1:11 PM  
Blogger augustoM said...

Começas bem o ano Leonor, gostei do teu texto, talvez incómodo para muita gente.
É o ritual que em vez do sonho do poeta, comanda a vida de muita gente, que pretende com ele preencher o seu vazio.
Um beijo. Augusto

1:35 PM  
Blogger A .Carlos said...

Olá Leonor,
Espero que este Novo Ano, te esteja a trazêr todas as coisas lindas que ambicionas, e que tenhas tempo para todos os dias olhares o mar.
Beijinhos :)

4:13 PM  
Blogger Miguel Pinto said...

com essa estória do tinteiro fiquei a pensar no privilégio que é ser professor. É que há sempre uma nova possibilidade de derramar o tinteiro: em Setembro e em Janeiro.

6:51 PM  
Blogger António said...

Minha querida Leonor!
Cá estamos no novo ano.
Vamos lá ver quem aguenta até ao fim sempre a postar e quem desiste.

Eu também não sou adepto da "alegria por decreto". Prefiro viver e sentir cada momento ou cada dia de acordo com o que dita a minha alma.
(mas que coisa poética..eh eh)
Mais um delicioso post carregado de ironia.

Obrigado pela tua visita.
Mas uma coisa te digo: não poderás saber o fim porque eu também não o sei ao certo.
Tinha idealizado uma história com todos os erres e esses mas, mal comecei a escrever, a história começou a ser modificada.

Beijinhos

10:19 PM  
Blogger António said...

This comment has been removed by a blog administrator.

10:19 PM  
Anonymous JMC said...

Pois é, no inicio de cada Ano, lá começamos nós, como se realmente estivessemos a usar uma agenda nova, cuidados muitos, porque é nova, letra certinha muito cuidado, mas com o passar, dos dias vamos esquecer, descurando a letra e os cuidados, tal qual ano novo, projectos para este ano isto mais aquilo e ainda um que não foi realizado do ano anterior, mas, a pressão outras coisas que vão aparecer com mais prioridade, e lá se vão entornando os tinteiros, vários por ano.
Devido a morar perto, mesmo perto do mar, costumo fazer essa contemplação varias vezes e, a sensação é sempre diferente, entre o acalmar e a vontade de fazer qualquer coisa a seguir, acho que é um misto de sentimentos, mais notavel na época de inverno, não há gente, podemos falar com nós proprios e tambem ouvirmo-nos, sempre com aquele cenario de fundo.
O texto que escreve, é ele próprio um motivo de relexão, para si que o escreveu, e para quem o lê.

Bom Ano de 2006.

JMC

12:34 AM  
Blogger GNM said...

: )
Gosto do teu programa de dia 1. Eu fui até a praia de bicileta...

Desejo-te um excelente ano de 2006.

Diverte-te e sorri!

1:00 AM  
Blogger Henrique Santos said...

Cheguei, vim do ano passado... Cheguei para te dizer que reencontrei a Lianor em forma... Dois belos textos, com cariz poético em muitas ocasiões... com um sentido positivo, sempre! Também eu fico fascinado com o mar. No Algarve, num inverno, à noite quando regressava ao apartamento, festejava o som do mar buliçoso. Eram violinos que tocavam a mesma partidura de sempre, o vai e vem da vida, os carreiros marcados, mas também os caminhos a desbravar, num novo horizonte, já desgastado ou inteiramente novo... Nós vamos escolher, se nos deixarem...
Obrigada por me teres feito andar no meio das ondas... olha, se calhar fico por lá...
Bjinhos, Ricky

11:23 AM  
Blogger AS said...

Leonor foi ver o mar
Mal nascia o Janeiro
Foi á praia sem cuidar
Que o mar é traiçoeiro
Leonor foi ver o mar
E derramou o tinteiro...

Querida Leonor, um 2006 com tudo de bom para ti!...

Um abraço

2:28 PM  
Blogger lena said...

bom gosto, tudo o que mais gosto, ir ver o mar
também fui, de fugida mas fui,
um dia sem mar para mim não é o dia

gosto dele, sei que não me vai trair

beijinhos

lena

3:34 PM  
Anonymous Friedrich said...

De mata-borrão junto à mão não vá a tinta derramar em cima dos sonhos por realizar na nova agenda a estrear... Sorrio para a caneta que tenho na mão, e para não quebrar a tradição desejo-te um bom ano na terceira folha da agenda que acabei de estrear. E escrevo, felicidades Leonor

Beijos

6:51 PM  
Blogger Leonoretta said...

para jmc

é exactamente isso mesmo jmc. com o passar dos dias vamos descurando a letra na agenda nova. é como quando estreamos um par de sapatos. nos primerios dias ainda lhes puxamos o brilho, para o fim ja queremos outro par de sapatos.

o mar é daquelas forças naturais cujo movimento nos remete para a nossa insignificancia de ser humano. senao somos crentes... por ve-lo acabamos por ficar.

tudo de bom para si neste ano novo

abraço da leonoreta

9:47 PM  
Blogger A.J.Faria said...

Olá, Leonor!
Poéticamente direi que o mar é importante por variadíssimos aspectos...nem que seja para vermos a nossa insignificância.
Beijinho,

10:35 PM  
Anonymous mar said...

É caso para dizer: Que não derrames o tinteiro Leonor. Que eu não derrame o tinteiro. E se possível que a humanidade não derrame o tinteiro.......
Um bom ano e um beijo amigo :)

6:51 PM  
Blogger Vagabundo said...

Faz lembrar uma musica, acho é do Fausto.. " Rosalina se fôres á praia/cuidado não te descáia/o teu pé de catráia/em óleo sujo á beira mar"

Tou de reresso a esta Fuga, um Feliz 2006 pra ti.

Bj Vagabundo

9:43 PM  
Blogger Betty Branco Martins said...

Querida Leonor

Estou de volta. E também fui ver o mar (embora longe daqui)

Estamos todos a estrear uns "sapatos" novos - contudo parece-me que o "tamanho" vem um pouco apertado!!!

Um abraço - extra large - para ti amiga.

9:48 PM  
Blogger Miguel Sousa said...

Cara Leonor, para mim esse rituais dizem-me muito, apesar de já me terem dito mais. Agora numa sociedade em que os jovens precisam de referenciais familiares, acho que é dever dos adultos engrandecerem esses "rituais" de maneira a que os jovens gostem. Estou colaborando num estudo internacional sobre o suicidio, e uma das coisas que são claras é a perda de referenciais de cultuira de identidade que caracterizam as populações com indices de suicidio mais elevados

12:09 AM  
Blogger Natalie Afonseca said...

Olá! A curiosidade fez-me deixar um fio da minhah teia neste teu cantinho!Gostei do que li e voltarei com ceretza!!
Um bom ano 2006!!
Bjs

11:55 AM  
Blogger Menina_marota said...

"E todo o mar se cobriu de infinitas riquezas
de anil e sedas e jóias e de odoríferas drogas
de si deitava nas praias moscatéis e licores
adoçando de sua bravura
o mar
nas margens adamascadas andam náufragos dispersos
mariscando lagostas ostras choupas taínhas
e bebem vinhos distintos de singulares aromas
se anda ao longo da costa em ofertas
o mar

E entregou Leonor
seus cabelos aos ventos
na quietude tão só
tão ausente de tudo
e mais quieta era a luz
no sossego das águas
e uma música escorre dos céus
devagar

E fazem tendas de aduelas de alcatifas majestosas
de outras peças de ouro e prata de cambraias e cetins
cobertas de colchas vermelhas de rosários de cristal
mas mais garrido do que toda aquela praia
o mar
e fazem velas das camisas e outras de damasco verde
as amarras de outros panos de veludo carmesim
de um remo fizeram o mastro
e a enxárcia de uma linha
e tão docemente embala este batel
o mar

Se todo o mar se cobriu de infinitas riquezas"

Letra e música de Fausto in "Crónicas da terra ardente"

que aqui te deixo com um grande abraço de Feliz 2006, que os teus sonhos se concretizem.

Ler-te é um privilégio. Tu sabes!

Bj ;)

1:21 PM  
Blogger NightWolf said...

Gostei muito do texto, eu adoro o mar, e faça sol ou chuva é eternamente lindo. Quanta a noite de passagem de ano, bebo champanhe e como as passas mas nao sou muito ligado a superstições, beijinhos*

3:27 PM  
Blogger terragel said...

LEONORETTA, eu penso mais ou menos como tu, não sou um seguidor das regras previstas pela sociedade e dadas como certo por muitos. Eu por exemplo entendo que o tempo tinha que ser repartido tirando-lhe a continuidade, tirandol-lhe a perenidade, por causa das jornadas de trabalho e por causa do p´róprio trabalho seja ele de que modo for.
De qualquer maneira o que quero te dizer que não sou apegado a regras, mais sou muito apegado a vida, a viver a vida com a maior simplicidade possível, tirando o que possa dela.................
Bjs

6:50 PM  
Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Leonor
Que tal pensar em quebrar esses rituais?
Um beijo
Daniel

7:47 PM  
Blogger caterina said...

A gente acaba sempre por derramar o tinteiro, descuidados como somos com as nossas próprias vidas. Eu nem passas nem champagne, acho que me cansei de me enganar. Mas essa tal ética em relação à sociedade lá nos obriga a certos rituais que disso não passam, só os dias passam e tão depressa que nem isso notamos.

12:12 PM  
Blogger O Micróbio said...

Que é como quem diz "Cuidado, Não borres a pintura!"... A renovação é uma constante da vida... Bom Ano!

2:58 PM  
Blogger isa xana said...

um bom ano para a minha querida leonoretta*

12:37 AM  
Blogger SaltaPocinhas said...

Lindo o texto (como sempre, aliás!), espectacular a foto!

1:45 AM  
Blogger saisminerais said...

Esta agenda em branco que dizes, já tem 22 páginas escritas de novo e ainda faltam umas tantas para escrever! O tinteiro deve de ser protegido, ainda está quase cheio! Entornar agora seria uma pena.
Dia 28 deste mês vou mais uma vez a um jantar a lisboa (blogsticio) se por acaso entornares o teu! avisa com antecedência que eu levo-te um novo.
Para isso só tens de te einscrever e claro aparecer por lá...
beijo

2:44 PM  

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